O advogado Edilson tem esperanças de que consiga trazer seu cliente para a casa ainda hoje  -  Foto:Alice Goulart Estevão/Notisul
O advogado Edilson tem esperanças de que consiga trazer seu cliente para a casa ainda hoje - Foto:Alice Goulart Estevão/Notisul

Alice Goulart Estevão
Tubarão

A defesa do policial militar (PM) da reserva remunerada, de 52 anos, de Tubarão, acusado de matar cinco pessoas da mesma família no Rio Grande do Sul no fim do mês passado, acredita que ele deve sair do quartel de Porto Alegre, onde está preso, ainda hoje. Para o advogado Edilson Garcia, a versão contada até então é da Polícia Civil. 

Lourdes Felipe, 64 anos, mãe de Valmir Felipe Figueiró, 29, e de Luciane Felipe Figueiró, 32, além de João Pedro, 5, e Miguel, de 1 mês, filhos de Luciane, foram encontrados mortos a tiros em casa. A única exceção é o bebê, que não possuía ferimento de bala. Os peritos suspeitam que ele tenha morrido sufocado ou de fome, já que foi encontrado embaixo do corpo da mãe.

“Eu tive acesso ao inquérito de quase 400 páginas, li por completo, página por página, e posso garantir que não há um indício mínimo de participação desse PM aposentado”, conta. Após o depoimento de hoje, ele pode voltar para Tubarão, caso a delegada liberar.  

Senão, o suspeito será liberado quando vencer a prisão temporária, de 30 dias, que deve encerrar no dia 8 de julho. A titular da 4ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, Luciana Smith, é a responsável por esta investigação.

Conforme o advogado, ele ficou na Cidade Azul com a família nos três possíveis dias da chacina, 24, 25 e 26 de maio. Para se deslocar entre as cidades e cometer o crime, demoraria cerca de 12 horas. 

Tentativa de suborno é negada
Outras informações também foram esclarecidas por Edilson, como a suposta oferta de R$ 10 mil ao laboratório por um exame de paternidade negativo. “O que ele disse foi que, para não ter esse filho reconhecido, pagaria até R$ 10 mil. Não que ele tenha oferecido, foi no sentido de um comentário como ‘daria tudo para me livrar disso’”, enfatiza. 

O medo da revelação da relação extraconjugal é por já ser casado (pela segunda vez) e paralelamente ter uma namorada, tia de Luciane. Inclusive, foi essa parente que alertou o policial sobre a sobrinha não ser confiável e aconselhou a realização de um exame de DNA. 

Esta é a mesma mulher que também foi no hospital no dia do nascimento de Miguel com uma tesoura para supostamente pegar um pedaço do cabelo da criança para o teste. Ela acabou expulsa do local. A delegada gaúcha, Luciana, chegou a decretar a prisão temporária dela, mas desistiu após o seu depoimento.

Depois do parto, o suspeito não voltou mais para Porto Alegre. Segundo a defesa, ele dirige um Jeep novo, por isso seria difícil passar despercebido. “Foram levantadas informações do aeroporto, rodoviária, locadoras de veículo, o deslocamento do celular, porque quando a gente se desloca entre estados, consta na operadora. Nada disso aconteceu”, relata o advogado. 

O PM tem bons álibis e imagens das câmeras dos locais em que esteve nas datas. Conforme Edilson, a polícia gaúcha quis dar uma satisfação à população diante da gravidade do crime e prendeu a pessoa errada. 

Motivação pode ter sido tráfico de drogas
O acusado tem uma ficha limpa e dedicou metade de sua vida à Polícia Militar. “Nunca teve problema envolvendo ação policial, nem de processo ou violência doméstica, nos seus mais de 50 anos. Pode-se dizer que ele é um policial exemplar”, ressalta Edilson. 

O advogado o descreveu como uma pessoa calma, que ganha muito bem e não teria problema de pagar uma pensão. A troca de mensagens entre Luciane e o pai do seu filho ocorreu, mas não houve ameaça. As mensagens enviadas à vítima eram de alerta, como: ‘se você estiver mentindo, vai ver o que vai acontecer, pode até ser ameaçada’. A outra linha de investigação é ligação com tráfico de drogas, incluída no fim do inquérito. Dez buchas de crack e cocaína foram encontradas embaixo de Valmir. Porém, até então era a única pista. Mas, na semana passada uma denunciante anônima revelou o nome de um traficante, que possivelmente encomendou o crime, e o autor. Para a defesa, a prisão do policial foi uma injustiça, a investigação não foi bem feita e apresentou falhas grandes. “Uma pessoa inocente não pode ser acusada de um crime tão grave por nada. Ele vai ser até excluído do processo. As pessoas compraram um livro pela capa”, conta. 

A alegação é por não existirem impressão digital, filmagem, nem testemunha que ele esteve nas proximidades da casa. “Não pensaram nas consequências que vai trazer daqui para frente, não só para ele, mas para a família, por ficar conhecido como o suspeito de matar cinco pessoas”, complementa.

Paternidade foi assumida
O sangramento sofrido por Luciane após um encontro com o pai não consta no inquérito. Depois do primeiro susto da gravidez, ele assumiu a paternidade. “Ele chegou a comprar o berço, ligou várias vezes porque não sabia o que tinha ocorrido. Quando viu que a situação já estava complicada, tentou resolver pagando uma pensão alimentícia”, alega. 
Todos os pedidos do advogado foram atendidos pelo acusado, como das imagens e informações do celular, o que conforme ele, é uma indicação de que não há culpa. “Ele está bem tranquilo, só está indignado. A situação ficou realmente muito ruim para ele. Até retornar à vida normal e se desfazer esse mal entendido, vai demorar”, lamenta.  

Advogado defende professora acusada de tortura
O advogado Edilson Garcia é conhecido pelo caso da professora acusada de praticar tortura em crianças de uma creche tubaronense. Em outubro de 2015, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina decidiu pela absolvição de Hellen de Souza Cunha, então com 33 anos. Além da liberdade, foi permitido que ela voltasse a lecionar.