Bastou a lembrança vir à tona para a emoção dominar o homem de 1,92 m de altura e 103 quilos. “Naquela situação traumatizante, só pensei nos meus dois filhos. Luto hoje para que eles nunca passem pelo que eu passei”, declarou o policial militar Rafael dos Santos, 33 anos. Ele acusa um restaurante, em Salvador, de ter cometido racismo, ao ser impedido de entrar no estabelecimento na noite de Quarta-feira de Cinzas (6). 

Segundo Rafael, ele foi ao encontro de um casal de amigos no local, quando a porta foi trancada logo na sua chegada – outras pessoas de pele clara não tiveram impedimento para ter acesso ao local, segundo o PM. Ele disse que não tem dúvida: foi vítima de racismo.“Até então, isso nunca havia acontecido comigo, mas esperava um dia, porque infelizmente o Brasil é um país racista”, disse o policial, com os olhos marejados.

O caso foi parar na 9ª Delegacia (Boca do Rio) e é acompanhado pelo Ministério Público Estadual (MP-BA). Em nota, o restaurante negou a acusação e informou que a moto do policial foi vista circulando nas proximidades do estabelecimento em “atitude suspeita”.

Soldado do Batalhão de Guardas há quase oito anos, Rafael é lotado no Departamento Estadual de Trânsito da Bahia (Detran-BA). No dia 6, havia trabalhado o dia inteiro e, ao final da Quarta-feira de Cinzas, foi ao encontro de um casal de amigos, que já o esperava dentro do restaurante, na Rua Melvi Jones.

Ele chegou ao local às 19h, usando calça jeans, camisa branca com detalhes em azul, tênis, relógio prata e uma bolsa que atravessava o peito. O PM desceu da moto e seguiu em direção à entrada do restaurante. No trecho, falava ao celular com a amiga que já estava no local. Foi quando notou algo de estranho. 

“Percebi uma movimentação dentro do restaurante. Os garçons (negros e brancos) estavam agitados. Me olhavam de forma diferente. Daí pensei: ‘Será que está rolando um assalto?’. Quando me aproximei, encostei meu rosto na parede de vidro, vi um clima tenso e, então, fui para entrar e vi que a porta estava trancada. Bati com a chave da moto e nada. Chamei pelo gerente e ninguém apareceu para me atender. Ainda assim, queria entender o que estava acontecendo, gritava para chamar o gerente, e nada de ninguém vir”, contou Rafael. 

Do lado de fora, Rafael disse que tentou falar com o gerente por mais de 10 minutos. Foi quando um amigo, também policial militar, filho de um coronel, desceu de uma Mercedes-Benz e foi até ele saber o que estava acontecendo.

“Nesse momento abriram a porta, e o gerente, Marcelo, um homem branco, veio falar comigo. ‘O que você quer aqui?’, perguntou ele. ‘Como o que eu quero aqui? Quero entrar’, respondi. ‘Tem alguém lhe aguardando aqui?’, perguntou novamente e rebati: ‘Não lhe interessa. Quero é entrar’. Foi aí que ele disse: ‘Sabe o que é, na semana passada assaltaram aqui e o senhor vem vestido dessa forma e trancamos a porta’. Então falei: ‘Quer dizer que você só abriu a porta porque meu amigo desceu de uma Mercedes-Benz?’”, relatou Rafael. 

Ainda de acordo com Rafael, o racismo foi ainda mais evidente quando quatro pessoas de pele clara entraram sem sequer serem abordados. “Chegaram quatro pessoas brancas e ninguém indagou nada, não perguntou o que estavam fazendo ali, se esperavam alguém, diferente da forma que me trataram”.

Diante da circunstância, Rafael deu voz de prisão ao gerente. “Disse para ele: ‘Você acha que estou armado? Poderia estar, porque sou policial militar (exibiu o distintivo). Agora, você está preso por racismo. Ele tentou contornar a situação, mas eu disse que só sairia dali direto para a delegacia”, contou. 

E foi o que aconteceu. Inicialmente, uma equipe da PM levou os dois para a 9ª Delegacia (Boca do Rio), mas, como não havia delegado, todos foram para a Central de Flagrantes, onde foram ouvidos pela delegada Celina de Cássia Fernandes. “Foram tomadas as declarações e a delegada achou por bem ouvir as partes e se aprofundar mais para não fazer juízo de valor”, explicou o advogado de Rafael, Dinoermeson Nascimento.  

Processo

No dia seguinte, Rafael foi ao MP-BA, onde também relatou todo o ocorrido. A assessoria de comunicação do MP-BA informou que o procedimento já existe, mas por enquanto a promotora Lívia Vaz, coordenadora do Grupo de Atuação Especial de Proteção aos Direitos Humanos e de Combate à Discriminação (GEDHDIS), não vai falar sobre o assunto. 

Mas Rafael não pretende parar por aí. Vai processar o Restaurante Picuí. “Quando contei o que houve para minha família, todos ficaram arrasados. Meus filhos (uma menina 12 anos e um menino 10) choraram muito. Meus pais, idosos, ficaram apavorados pensando que tinha acontecido algo de pior, porque parente de policial vive em constante tensão. Por isso, vou processar o restaurante”, disse o policial, que é formado em Administração pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e ogã de um terreiro em Simões Filho. 

“Não há dúvida de que o restaurante será processado. Dinheiro nenhum vai pagar o que ele sofreu, mas é para que isso não se repita não só no restaurante, mas em todos os ambientes”, complementou o advogado da vítima. 

Em nota, a Polícia Militar informou que ” foi acionada pelo militar no dia da ocorrência, na última quarta-feira (6), e fez o encaminhamento dos envolvidos para a Central de Flagrantes, onde o fato foi registrado”. A assessoria de comunicação da Polícia Civil disse que foi instaurado inquérito com base na Lei de Racismo na 9ª Delegacia (Boca do Rio), mas, até o momento, não informou as diretrizes do inquérito daqui por diante. 

“Seremos resistência sempre. Que casos como estes não fiquem na impunidade”, disse o policial.