quinta, 23 de maio de 2019
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Quarta Crítica - Ronaldo Sant'Anna

Em um piscar de olhos

Publicado em 23/04/2019 00h20

Na minha adolescência, nos anos 60, eram poucas as opções de lazer disponíveis, aliás, situação comum à época no Brasil. Nem se pensava em shoppings, os parques eram poucos, a televisão engatinhava, o rádio começava a perder o protagonismo que ostentava até então, o jornal atingia um público pequeno, pela questão do preço, o que impedia que muitas pessoas pudessem comprá-lo, além da alta taxa de analfabetismo existente à época. Por isto, o cinema era o grande veículo de lazer e cultura, pois era acessível ao grande público, o custo de uma entrada era relativamente pequeno, as salas de cinema lotavam, principalmente nos finais de semana. Porém, boa parte dos filmes era proibida para quem como eu, não tinha 18 anos, diferentemente de hoje, já que atualmente não existe proibição, mas sim indicação de faixa etária, o que faz com que crianças possam assistir filmes de terror, por exemplo, situação impossível à época. Com 15 anos, eu ansiava para chegar aos 18, principalmente para poder assistir aos filmes proibidos, mas a impressão que eu tinha era a de que o tempo não passava nunca.

Mal sabia eu que, ao chegar à maioridade, passaria a experimentar uma total reviravolta na percepção sobre o tempo. O ingresso no mercado de trabalho, depois na universidade, casamento, o envolvimento com muitas coisas simultaneamente fez com que a vida parecesse mais acelerada. E após o nascimento de minha filha, com tudo o que representa o cuidado com uma criança, pareceu tornar tudo mais veloz. De repente, a semana terminava, e quando a gente se dava conta um novo período já estava iniciando, a ponto de se perder a noção do passar do tempo. Pior, o surgimento das redes sociais elevou exponencialmente esta sensação, pela contínua transmissão de informações, que chegam como um dilúvio comunicativo, através de um sem-número de veículos. Hoje, Facebook, WhatsApp, Instagram, Twitter e centenas de outras redes sociais entopem nossos smartphones, notebooks, laptops, qualquer que seja o equipamento utilizado, de novos conteúdos, muitos deles, inclusive, absolutamente falsos.

Tudo isto faz com que a gente acabe levando a vida meio que no modo automático, e quando se percebe os filhos chegaram aos quarenta, os netos já são adultos, e se percebe que temos mais tempo no passado do que no futuro. Apesar da cabeça afirmar que ainda podemos, o corpo diz não em várias situações. Porém, para lutar contra esta inevitabilidade da condição humana, batalha que sabemos que iremos perder, é importante manter acesa a chama da curiosidade, da busca pelo novo, para que não percamos o interesse pelo mundo. Ainda mais importante é ficar perto de quem a gente ama e, principalmente, manifestar este amor a estas pessoas, não só através de palavras, mas com pequenos gestos, como um presente fora de hora, uma mensagem, pequenas gentilezas que podem significar muito para o outro.

A vida passa em um piscar de olhos, e cada um de nós deve trabalhar para que ela seja justificada. Não podemos todos ser Einstein, porém podemos ser a pessoa que vai ser lembrada com amor e carinho, e isto poderá fazer com que a nossa existência tenha tido sentido.


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