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Quarta Crítica - Ronaldo Sant'Anna

Farinha pouca? Meu pirão primeiro...

Publicado em 26/03/2019 00h09

“O senhor sabe com quem está falando?”. “Seu guarda, esquece a multa, aqui tá cinquentinha pra uma cervejinha”. “Este é o meu sobrinho, arruma um lugar prá ele aí na repartição”. “Amigo, coloca o meu processo no começo da fila, depois a gente acerta”. “Fica frio, não é ilegal, não traz prejuízo prá ninguém, é só um jeitinho”. “Dinheiro público não é de ninguém, então qual é o problema em pegar um pouco?”. Você, caro leitor, já deve ter se deparado com situações nas quais ouviu alguma das frases acima. Não é à toa que muita gente diz que a corrupção, o toma-lá-dá-cá, a impunidade, o carteiraço, os privilégios, fazem parte da cultura do Brasil. Quer um exemplo de privilégio? De acordo com a Folha de São Paulo, o ex-presidente Lula, apesar de estar preso, tem oito seguranças e assessores, pagos pelo governo federal, que custam cerca de R$ 50 mil mensais. Sete são militares, e recebem remuneração extra, por função comissionada. O Ministério Público está querendo a redução desses benefícios, em virtude da prisão. Folha de São Paulo.    

Parece haver, desde a colonização do país, uma espécie de naturalização do privilégio, introjetada na mente do brasileiro, como se vivêssemos em um sistema de castas, semelhante ao que ainda vigora na Índia, apesar de estarmos em pleno século XXI. E os nossos brâmanes, a casta mais alta, seriam os políticos. Se pudéssemos comparar o custo/benefício de cada membro do legislativo, o resultado seria altamente negativo, se compararmos o que cada parlamentar recebe com o que a sua atuação gera de benefício social. Aliás, há muito tempo venho dizendo que sou um defensor da unicameralidade, isto é, somente uma instância legislativa federal, ao invés de duas (Senado e Câmara dos Deputados), como atualmente. O processo de tramitação de projetos nas duas casas, como é hoje, principalmente qualquer mudança constitucional, parece ter sido criado deliberadamente para ser lento, o que favorece a negociação, a qual, na maioria das vezes, transforma-se em negociata.

É o histórico modelo de processo burocrático: criar dificuldades para vender facilidades. Além disto, qualquer governo neste país terá muitos problemas para realizar qualquer mudança que envolva a perda de privilégios, porque os nossos brâmanes estão acostumados com os mesmos e não querem abrir mão deles. É o caso da reforma da previdência que está (ou deveria estar) tramitando no Congresso. Todos concordam, pelo menos publicamente, que ela é necessária, se não for feita agora é possível que nossos filhos e netos não tenham condições de se aposentar, porém quando precisam abrir mão de algum privilégio, aí o furo é mais embaixo. É a velha história, farinha pouca, meu pirão primeiro. E como o atual governo não é dos mais habilidosos em negociação política, como dá para ver na relação com o presidente da Câmara dos Deputados, o gordinho com cara de duende Rodrigo Maia, é possível que a reforma se arraste por todo este ano, e como 2020 é ano eleitoral, dificilmente o Congresso vai votar algo que seja impopular. Daqui a pouco alguém vai informar a Bolsonaro que a reforma, como diz a piada, “subiu no telhado”.


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