quarta, 24 de abril de 2019
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Quarta Crítica - Ronaldo Sant'Anna

O país do depois

Publicado em 29/01/2019 00h04

Dizem que sábio é aquele que consegue aprender com os próprios erros, porém, na minha opinião, a verdadeira sabedoria é aprender com os erros dos outros, para não cometer os mesmos enganos. Estou pensando isto ao ver as notícias mais recentes sobre a nova tragédia que atingiu Minas Gerais e, por consequência, a cada um dos brasileiros, com exceção daqueles que deveriam ter o dever de evitar que fatos como esse acontecessem, as autoridades constituídas, seja em âmbito federal, estadual e até municipal. Ou alguém acredita que os prefeitos de Mariana, atingida pelo rompimento da barragem em 2015, e Brumadinho, que sofreu o mesmo desastre na sexta-feira, assim como o então governador, Fernando Pimentel, e os presidentes Dilma Rousseff e Michel Temer, não tinham a menor ideia sobre a situação de total insegurança das barragens de Minas e, por extensão, de todo o Brasil. 

No momento em que estou escrevendo este texto (14 horas de segunda-feira) a quantidade de mortos já chegava a 60, e o de desaparecidos a quase 300, o que significa que o número de vítimas deve aumentar consideravelmente nos próximos dias. Ainda não foram resgatadas as pessoas que estavam na sede administrativa da Vale, além daquelas que estavam em um ônibus no qual tentavam fugir da avalanche de lama. Uma pergunta: por que a estrutura administrativa da empresa foi construída em um local que poderia ser atingido pelo conteúdo da barragem? Será que ninguém levou em consideração essa possibilidade? E a fiscalização municipal, estadual e federal, onde andava? Depois da tragédia de Mariana, não deveriam os gestores buscar a prevenção, para evitar que fatos como esses se repetissem? 

Mas se a gente raciocinar sobre o caso, algumas coisas começam a ficar evidentes. Por exemplo: a arrecadação do município de Brumadinho vem quase que totalmente da Vale, o que pode ter levado o prefeito a passar por cima de algumas coisas, como a fiscalização mais rigorosa sobre a empresa, já que a cidade, de uma certa maneira, depende dela. No âmbito estadual, projetos tornando mais difíceis os licenciamentos ambientais não foram aprovados, por interesses político-partidários. Já o governo federal mais uma vez lavou as mãos, uma vez que até hoje temos pessoas que foram atingidas pelo rompimento da barragem morando em pensões, hotéis ou em casas alugadas pela Vale, já que os processos judiciais ainda não foram encerrados. E a sociedade brasileira, que deveria ter pressionado os governos, parece que esqueceu de tudo o que aconteceu, como todas as catástrofes no país. 

O Brasil é o país do depois. Somente depois de acontecerem situações como estas tragédias, e são inúmeros os exemplos existentes na história da nação, é que os diversos setores se mobilizam para protestar, exigir mudanças, pronunciar-se na mídia, fazendo isto até que novo desastre aconteça, eclipsando o anterior. Porém, como diz o ditado popular, não adianta chorar depois do leite derramado. E, neste caso, o que foi derramado pela incompetência de alguns foi o sangue de muitos.


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