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Quarta Crítica - Ronaldo Sant'Anna

Memória assassinada

Publicado em 04/09/2018 01h05

O incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, no último domingo, foi apenas mais uma das tragédias anunciadas que podem ocorrer em diversas outras áreas do Brasil. Ou alguém acha que os desvios de verbas da  educação, saúde e segurança, sem falar em infraestrutura, podem levar a outra coisa que não seja a formação de indivíduos sem competência para enfrentar o mercado de trabalho, no caso da educação, aumento da marginalidade e criminalidade, na segurança, e piora constante no atendimento de hospitais e outras instituições de saúde. O incêndio destruiu cerca de 20 milhões de itens, porém pior do que isso, mostrou um triste retrato de como o país trata a própria história. Isto sem falar no quase total descaso com a cultura, uma vez que verbas para a área estão sendo diminuídas ano a ano, com exceção do financiamento para alguns apaniguados. Querem um exemplo? Muita gente lembra a polêmica, alguns anos atrás, sobre a autorização do Ministério da Cultura para que Maria Bethânia captasse um milhão de reais, via Lei Rouanet, para a produção de um CD de poesias, que gerou uma onda de protestos por todo o Brasil e acabou cancelada.

O museu, que está completando 200 anos em 2018, tinha um acervo de 20 milhões de itens, e não se tem ainda ideia sobre o que foi destruído, mas as primeiras informações são desoladoras. O MN era o maior museu de História Natural da América Latina, com o mais antigo fóssil encontrado no continente americano, o crânio de uma mulher, apelidada de Luzia, o setor de arqueologia tinha múmias e objetos egípcios, o trono de um rei africano, estátuas, entre outros objetos, além de servir como base para diversas pesquisas. Ou seja, as perdas são inestimáveis. Muito do que se perdeu foi porque, quando os bombeiros chegaram, não havia pressão suficiente nos hidrantes, sendo necessária a utilização de carros-pipa, que foram abastecidos com água retirada do lago da Quinta da Boa Vista, próximo ao museu. Foi um show de incompetências. Alexander Kellner, diretor da entidade, disse que as perdas poderiam ser menores se o governo federal tivesse cedido um terreno que fica ao lado do museu, para onde iria parte do acerco, mas o processo, para variar, está “sendo analisado”.

Roberto Leher, reitor da UFRJ, entidade à qual pertence o museu, reclamou da diminuição progressiva de verbas para a instituição, que passou de 70 milhões de reais em 2014 para 20 milhões em 2016. Os recursos para manutenção do prédio, de cerca de 500 mil reais por ano, tiveram liberados 54 mil reais até abril de 2018, obrigando o museu a fazer, pasmem, uma vaquinha pela Internet. Porém, o que mais preocupa é que situações como esta podem ocorrer com outros prédios públicos por todo o país. Em Tubarão, por exemplo, o museu Willy Zumblick precisa de reformas, basta lembrar que recentemente a biblioteca pública que fica no prédio teve que ser fechada durante algum tempo para o conserto de goteiras, que estavam danificando o acervo. Esperemos que o caso do Museu Nacional acenda a luz amarela para os gestores municipais, antes que precisemos ver, como ontem, as luzes vermelhas de bombeiros, impotentes para evitar que a nossa memória seja assassinada.


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