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Quarta Crítica - Ismael Medeiros

Do colapso ao caos

Publicado em 07/02/2019 00h06

Caro leitor, ao menos para o segmento da engenharia, a década de 1980 foi considerada como a década perdida. Enquanto a década de 1970 ficara conhecida como a “era de ouro” (me refiro a investimentos em infraestrutura), a seguinte é lembrada pela abrupta desaceleração de investimentos em ciência, pesquisa e desenvolvimento, áreas diretamente ligadas às engenharias. Como consequência, a engenharia nacional passou de protagonista a coadjuvante. Em decorrência desta década perdida, hoje a engenharia é apenas uma das alternativas utilizadas como massa de manobra nas mãos de muitos, em prol de interesses nem sempre puros. Hoje, a engenharia cumpre muito mais uma necessidade jurídica do que técnica.    

O fato, é que houve uma descontinuidade de transmissão de conhecimentos com a chamada década perdida. Com o início desta, muitos engenheiros novos foram atuar em áreas estranhas à engenharia, numa clara necessidade de manter a subsistência sua e dos seus. Neste período, bons engenheiros viraram bancários, comerciários, funcionários públicos, etc., ou seja, fizerem de tudo, menos exercer a engenharia. Como resultado, os engenheiros seniors (oriundos da década de ouro) não tiveram a quem repassar sua experiência e expertise, descontinuando o processo natural de transmissão de conhecimento. 

Em consequência desta descontinuidade de transmissão de conhecimentos e consequente evolução de processos, comina o colapso na infraestrutura nacional. Nos últimos cinco anos, tivemos o rompimento de duas barragens, passarelas, pontes, viadutos, edifícios residenciais e comerciais, apenas para citar alguns exemplos. Não, meu caro leitor, o que falta no Brasil não é fiscalização, é vergonha na cara em querer fazer e fazer o certo, seguindo rigorosamente a técnica. A desvalorização da engenharia permite que estas atrocidades aconteçam, ceifando milhares de vidas e custando zilhões aos cofres públicos.  A banalização da engenharia permitiu que chegássemos a este ponto, um ponto no qual falha-se na essência, ou seja, na concepção do projeto.

Infelizmente, não há como ser otimista diante do cenário de amnésia que assola a nós, brasileiros. Rapidamente nos esquecemos das coisas, trocamos a indignação fervorosa pelas rotinas diárias e não analisamos os fatos, apenas os comentamos. Não aprendemos nada com as tragédias da boate Kiss ou com Mariana, ou melhor, vou mais longe, não aprendemos nada com a “década perdida”, pois estamos repetindo os mesmos equívocos de descontinuidade de conhecimento, mas esperançosos por resultados diferentes. Hoje, é muito comum uma empresa de engenharia possuir mais advogados em seu quadro técnico do que engenheiros. Existem, com certeza, erros na compreensão do papel da engenharia no desenvolvimento do país. Não há país desenvolvido sem engenharia atuante. Não há engenheiros atuantes sem demandas nacionais. Assim é a relação entre a engenharia e uma nação desenvolvida, um círculo vicioso num contínuo processo de demandas e respostas. Enquanto não aprendermos que a técnica deve prevalecer, infelizmente a imprensa continuará a vender jornais noticiando o colapso da engenharia nacional. Reflitamos, e assim a vida segue.


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