segunda, 24 de junho de 2019
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Quarta Crítica - Ismael Medeiros

Por que uma barragem rompe?

Publicado em 31/01/2019 00h08

Caro leitor, não há como ignorar o assunto que estampa as manchetes da semana. Sim, estou me referindo ao rompimento da barragem de Brumadinho/MG. Alguns chamam de desastre, outros chamam de acidente, alguns de fatalidade, enfim, o fato é que, independentemente de qual nomenclatura este evento receba, o fato é o rompimento de uma estrutura de engenharia. Mas afinal, de quem é a culpa? Naturalmente este questionamento será respondido pelos agentes responsáveis, e neste sentido proponho uma reflexão sobre algumas discussões, embora importantes, mas que ocorrem como pano de fundo. O conjunto de fatores que levam ao rompimento de uma barragem homogênea, modelos compartilhados pelas barragens de Mariana e Brumadinho, além de tantas outras espalhadas pelo território nacional, vão além do simples monitoramento de movimentação ou presença de trincas no maciço.    

Elementos geotécnicos, comportamento geomecânico, etc., fazem parte do conjunto de elementos que são aferidos em laudos de estabilidade da estrutura. Segundo qualquer plano de monitoramento de barragem, estes tópicos precisam ser atendidos minimamente e aferidos continuamente, e seus resultados interpretados de forma a delimitar o grau de risco da estrutura. Mas então, por qual motivo uma barragem rompe? Falando em termos gerais, uma barragem não rompe da noite para o dia, salvo a presença de algum agente externo. Este tipo de estrutura acaba apresentando sinais de colapso muito antes de sua ocorrência. Sem me aprofundar nas esferas técnicas do rompimento, proponho uma reflexão mais ampla sobre o assunto.

Uma barragem rompe quando negligenciamos os sinais de perigo. Uma barragem rompe quando não interpretamos corretamente as informações que nos foram repassadas. Uma barragem rompe quando substituímos decisões técnicas por políticas. Uma barragem rompe quando falamos aquilo que se quer ouvir, não o que precisa ser dito. Uma barragem rompe quando não aprendemos nada com nossos erros passados. Uma barragem rompe quando ignoramos o iminente perigo que circunda nossas ações. Uma barragem rompe quando a soberba substitui a humildade.  

Infelizmente, fica evidente que nada aprendemos com o avassalador rompimento da barragem de Mariana, e que continuamos tomando decisões erradas. Novamente, a engenharia brasileira encontra-se no banco dos réus. O fato é que a engenharia brasileira precisa reconquistar sua importância, deixando de ser apenas um mero coadjuvante e voltar a ser protagonista de outrora. Resta saber agora se aprenderemos algo com estes eventos que transcendem suas consequências imediatas, e continuarão por vários anos na cabeça daqueles atingidos direta ou indiretamente, e em várias gerações para a reconstituição natural dos ecossistemas.

A sociedade brasileira aguarda as definições dos culpados, técnicos, engenheiros, executivos, e naturalmente clama para que a punição seja exemplar. No entanto, talvez o verdadeiro culpado seja a soberba humana. A soberba ocasionou o rompimento de Mariana, e tudo leva a crer que levou ao rompimento de Brumadinho.  Reflitamos, e assim a vida segue.


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