No distrito de Gravatá, em um comício tendo como palanque a carroceria de um caminhão, o líder local do PSD, depois primeiro prefeito eleito de Gravatal, determinou o corte da luz, e uma charanga, comandada por uma menina de 10 anos mais ou menos, filha do futuro alcaide gravatalense, impedia nossos discursos de serem ouvidos pelo povo – e assim, também foi, em muito outros distritos; mesmo assim, pouco mais de 150 votos separaram Willy Zumblick da vitória.

Após a derrota eleitoral que para ele não foi uma derrota, mas uma maneira de chamar a atenção para a necessidade de se planejar novos caminhos para sua amada cidade, Willy reuniu os companheiros de campanha em sua casa; e sorteou três quadros; um deles foi ganho por Édio, motorista do jipe candango.

Confesso que fiquei com inveja do companheiro de jornada. Dias depois, Édio me avisou que iria trabalhar em outra região, perguntou-me se queria comprar o quadro do seu Willy. Foi a minha primeira aquisição de um bem no sistema de crediário – e hoje o quadro, uma paisagem, adorna uma das paredes de meu escritório.

Willy continuou vivendo na sua bem-aventurança de artista plástico e de artesão de relógios. Amando sua terra, pintando sua gente, registrando sua história, se fez também escultor, moldando argilas, metais, esculpindo, transfigurando, criando esculturas que nos permite fazer dupla leitura: o do Willy pintor, de traços múltiplos, clássicos e pós-clássicos, transcendendo escolas de arte, e o Willy escultor, pós-moderno. Ambos brilhantes.

Quando eu ocupava a chefia de gabinete da secretaria de estado da educação, quinzenalmente ia ao sul, namorar a namorada, gravatalense, filha do ex-prefeito pessedista. Mas antes passava na Ótica e Relojoaria Zumblick para um dedo de prosa, aprender a aprender um pouco de arte, sabedoria, com seu Willy. Saíamos para um cafezinho.

Mas um dia, em vez do café, ele me disse. Está no tempo de noivar, rapaz, não está enganando a moça, não? Pega uma aliança e bota no dedo dela.
“Mas nem sei que número ela usa!”.
“Não tem importância. Espere um pouco”.
Sumiu no interior da loja, e retornou com dezenas de alianças e anéis, botou tudo em um saquinho, e me disse: “Leva e faça a prova”.

Noivei. Na segunda-feira, quando fui devolver os outros anéis e alianças, Carlinhos é quem estava na relojoaria. Esparramei as jóias em cima do balcão, e ele, estranhando aquela fortuna que saíra de meu bolso, perguntou-me se eu agora também era vendedor de jóias.

Assim era Willy: poesia até no comércio.
Eu e Dag nos casamos em uma igrejinha que, soube depois, estava destinada a ser demolida, em função da modernidade. Foi o último ato religioso realizado na capela. Dias depois, lá estava Willy Zumblick, tela e pincel, pintando a igreja e a parte antiga de Gravatal – foi seu presente de casamento.

Tinha um humor especial. Um amigo em Washington comunicou-me que encontrou o meu livro Rasga-Mortalha na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Tempo depois, bastante tempo depois, consultei na internet o catálogo on-line da biblioteca, e lá estava o livro, o nome do autor, e do ilustrador, Willy Zumblick. Imprimi uma cópia, e ele muito feliz, brincalhão, comentou com dona Célia: “Veja Célia, não traduziram o nosso nome para o inglês”. Tinha a alma de sua gente, açoriana, lusitana, italiana, africana, embora de ascendência germânica.

Tubarão já foi a capital do sul catarinense, foi sede de uma universidade, hoje campus de Tubarão, mas será eternamente a cidade de Willy Zumblick, que através de sua arte nos deu identidade. Mostrou ao mundo a alma de nossa gente. Willy Alfredo Zumblick, o cidadão mais universal da Cidade Azul, sempre foi fidelíssimo à comunidade onde nasceu, cresceu, casou-se, criou os seus filhos, e através da magia de seu olhar de bondade e amor pela humanidade, e de suas mãos miraculosas, deu à nossa Tubarão um status de cidadania universal. Willy Zumblick coloca Tubarão na história das artes plásticas, em Santa Catarina, no Brasil. No mundo.