A principal missão do cristão é anunciar o evangelho de Jesus Cristo com sua pessoa, sua palavra e suas ações.
A grande questão que se coloca é descobrir a forma da evangelização nos dias de hoje, numa uma sociedade globalizada e no horizonte da vocação dos cristãos.
A igreja dos primeiros tempos conheceu um modelo de evangelização muito singular. Ele aparece na belíssima ‘Carta a Diogneto’. O autor desconhecido do século II responde à pergunta: “Como os cristãos vivem Deus e quem são eles?”. Na resposta, refere-se a um novo gênero e estilo de vida do cotidiano. Assim, ele deixa claro no seu escrito: “Os cristãos não adoram os deuses pagãos nem tributam a Deus culto idêntico ao dos gentios; os cristãos não se distinguem dos demais, nem pela região, nem pela língua, nem pelos costumes; eles não habitam a parte, nem usam idioma diverso, nem levam um gênero de vida extraordinário; é justamente aí que vem a beleza da vocação cristã; em cada gesto cotidiano que os outros fazem, eles dão um toque diferente; eles moram na terra, com espírito peregrino e toda terra estranha não lhes é estranha; eles estão em casa em qualquer parte do mundo, mas, por sua vez, toda pátria lhes é estranha superando nacionalismos doentios”.
Reescrever esta carta dos primeiros tempos da igreja nos dias de hoje é um desafio maravilhoso para o ser cristão no cotidiano do trabalho, do lazer, da família, da vida urbanizada, do encontro com as pessoas.

Nesse sentido, concretamente, o cristão de hoje dirige automóvel como todos os outros, mas não se irrita facilmente, nem invade a pista dos outros, nem põe em riso a vida dos transeuntes, nem polui o ar nem o silêncio. O cristão de hoje assiste à televisão como todos os outros, porém, não o faz à custa do convívio familiar, nem suja a mente com o lixo de novelas e programas de auditório, feitos na maioria das vezes de frivolidades.

O cristão de hoje habita as grandes cidades com suas lógicas férreas, sem se deixar levar por elas, mas enfrentando-as na criticidade de sua fé. O cristão de hoje anda pelas ruas com os olhos abertos, vê as vitrines atulhadas de bens de consumo, belamente atraentes, mas não se deixa seduzir pelo consumismo. O cristão de hoje não teme olhar as pessoas nos olhos, no rosto, porque seu olhar não é concupiscente, mas transparente.

O cristão de hoje abraça, beija, diz palavras de benquerença a tantos quantos encontra, e não finge amizade, nem reflete formalismo e muito menos ainda esconde desejos inconfessáveis. O cristão de hoje vive em família com a esposa ou esposo, como tantos; olha para sua esposa ou esposo e recorda que mantém com ela ou com ele uma relação-símbolo do amor de Cristo à sua igreja.

O cristão de hoje sofre, como tantos, a traição de uma esposa ou esposo, de uma filha ou filho, ou de uma amiga ou amigo, mas olha para quem o traiu com o mesmo olhar de perdão, de ternura, de esperança que Jesus lançou a Pedro depois da traição no pátio do sumo sacerdote. O cristão de hoje pertence à sociedade do trabalho, ocupa-se com as mais diversas atividades, mas a motivação do trabalho, a forma de levá-lo, o sentido que lhe dá, mostra uma originalidade peculiar.

O cristão de hoje vive na sociedade da moeda, do lucro, do capital; não prescinde do dinheiro para a sua vida e a da família, mas ganha-o honestamente e, sobretudo, deixa-se tocar pelo espírito das bem-aventuranças de simplicidade, de confiança, de liberdade. O cristão de hoje veste-se e come como todos, mas não se esquece da generosidade de Deus que cuida dele até mais que os lírios e pássaros dos campos.

Assim, poderíamos ir longe pensando no cotidiano e sempre perceber o toque original de que o cristão de hoje é capaz de dar-lhe, porque é discípulo missionário de Jesus Cristo, o caminho certo, a verdade segura e a vida plena. A reescrita da “Carta a Diogneto” leva-nos avante. Aí está o seu espírito, cabe-nos encontrar as letras a cada dia.