Émile Zola, em seu clássico O Germinal, fez profundas reflexões sobre a exploração do trabalho e seus efeitos nefastos quando imputado a crianças e adolescentes. Simplesmente, rouba-se uma fase significativa da vida de um indivíduo que deveria brincar, estudar e assim construir uma personalidade saudável para no futuro enfrentar o mercado de trabalho, frequentemente insano. Considerando suas reflexões, cravadas no fim do século 19, era de se observar significativos avanços na sociedade contemporânea. No entanto, o observado é um verdadeiro retrocesso.
 
Um projeto da câmara dos deputados pretende reduzir de 16 para 14 anos a idade mínima no ingresso formal do mercado de trabalho. E, acredite, tem apoio de dois deputados catarinenses: Onofre Agostine e Edinho Bez. É preciso salientar o esforço dos órgãos públicos de Santa Catarina, desde a década de 1990, em erradicar o trabalho infantil no estado. Um movimento liderado pelo Ministério Público, com apoio dos conselhos tutelares e da OAB. A posição dos deputados parece caminhar na contramão desse entendimento. Sob o argumento de oportunizar a legalização do que já existe, querem escancarar o abuso econômico de menores e inviabilizar de vez o estudo aplicado, única saída possível aos adolescentes desse círculo perverso da exploração de mão-de-obra desqualificada. Ou alguém imagina que as empresas pagarão salários dignos, capazes de proporcionar estudo e qualidade de vida para essas crianças?
 
O governo estadual vem apresentando aos quatro ventos a implantação do ensino médio de tempo integral. Os adolescentes e jovens ficariam mais tempo na escola, aprendendo educação geral para os vestibulares; fariam atividades complementares, inclusive algumas de cunho holístico; seria oferecido ensino profissionalizante e atividades voltadas para o empreendedorismo. Um programa audacioso e extremamente importante para a juventude catarinense. Porém já nasce ferido de morte se o projeto de redução da idade para ingresso no mercado de trabalho for aprovado. Infelizmente, as famílias mais carentes vão priorizar a carteira assinada em detrimento à carteira da sala de aula.
 
Mais uma vez, nossos representantes de Brasília parecem virar as costas para os reais problemas de nossa sociedade. Buscam legitimar o erro, pois buscar o acerto implica em mudanças profundas, as quais são incapazes de encampar. O Brasil precisa repensar sua distribuição de renda e melhorar seus índices de qualidade de vida. O ridículo 84º lugar no ranking de desenvolvimento humano mostra que estamos muito longe do ideal. A saída para isso? Educação! Mais tempo útil nas salas de aula. Países de capacidade econômica muito inferior viraram o jogo investindo em educação, incentivando crianças e jovens a dedicar mais tempo aos estudos. Por aqui o óbvio parece um enigma.  O lugar da juventude é na escola e longe dos cabrestos do trabalho exploratório, típico do capitalismo selvagem que nos devora.