Víctor Daltoé dos Anjos
bacharel em Geografia pela UFSC

victordaltoe@gmail.com

“Não existe vácuo de poder”: lema quase óbvio no mais elementar manual de ciência política. O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, não sabe disso. Deixou o Acordo do Clima de Paris, as negociações da Parceria do Pacífico (TPP), anulou os acordos com Irã sobre armamentos nucleares, elevou as tarifas alfandegárias e tem deixado para os outros as negociações de paz na Síria. Enquanto isso, China e Rússia iniciam a maratona para ocupar o vácuo deixado pela política externa de Donald Trump.

Desde o pós-2ª Guerra, os EUA ergueram as pontes que sustentam sua hegemonia mundial. Elas significaram o terreno comum sobre o qual os americanos lideraram a luta da sociedade de mercado e da democracia liberal contra o bloco socialista. Por essas pontes, passaram os exércitos de soldados e de diplomatas no caminho da vitória, pois o mundo comunista trincou e se estilhaçou entre 1989 e 1991. Agora, Trump está implodindo compromissos construídos por décadas, e está difícil saber em cima de que cabeça cairão os escombros.

O governou do republicano George W. Bush (2001-2009) já havia iniciado a “guerra ao terror”. Ao invés do tradicional jogo multilateral dos interesses nacionais dos aliados, os americanos adotaram o espírito cruzadista e unilateral. Os ressentimentos na comunidade internacional foram enormes. Trump, por sua vez, amontoou sob o sol a palha seca do isolacionismo: a ideia de que não interessa aos Estados Unidos se atolar nas areias desérticas dos conflitos mundiais. Sentou na Casa Branca em 2017 e riscou o fósforo. O temor é que a hegemonia americana seja consumida pelo fogo do populismo de Trump.

Os EUA podem ter sido escusos no uso de seu poder global, mas sempre houve o mínimo de defesa da democracia liberal e da sociedade de mercado. Será melhor um mundo em que a hegemonia seja chinesa? Logo a China, um regime ditatorial de partido único ultranacionalista, que veste o traje vermelho do comunismo e censura a vida do seu imenso rebanho populacional? Ou será melhor se for da Rússia, governada por um presidente populista, autoritário e aliado da esquerda e direita extremas?

O processo já está se dando, e carregado de simbologia. Enquanto Trump destrói as pontes da diplomacia e chama imigrantes de “animais”, Vladimir Putin, o presidente russo, acaba de inaugurar uma ponte ligando a Rússia à Crimeia, região ucraniana anexada em 2014. Atravessou-a dirigindo uma carreta alaranjada por 19 quilômetros. O populista Putin constrói as suas pontes, enquanto Trump dinamita as dele. Salve-se quem puder.