A primeira das “10 medidas para o sucesso escolar”, publicadas neste espaço, é transformar acusação mútua e transferência de responsabilidade, entre todos os envolvidos, em cooperação e comprometimento, visando ao objetivo comum: a qualidade do ensino. São eles: governantes, pais, alunos, mercado de trabalho e educadores.

De fato, nada é mais improdutivo do que contendas vãs entre corresponsáveis. Interrompem o diálogo e mantêm rotinas, mesmo as inúteis, porque se considera que o responsável pelo fracasso é o outro. Nesta guerra, a principal vítima é a produtividade, no caso em questão, o aluno. Analisemos a situação:

Se perguntarmos sobre a causa do mau desempenho dos alunos a professores do ensino superior, a acusação, na ponta da língua, apontará para o ensino médio. Se inquirirmos os professores do ensino médio, dirão que o problema está no ensino fundamental. Se o mesmo questionamento for dirigido aos do ensino fundamental, afirmarão que o problema já vem da pré-escola, e os da pré-escola indicarão as famílias. Aspectos estes que não deixam de ser verdade. Deficiências na base escolar, quando não sanadas, acompanham o aluno por todo o percurso educativo ou fazem com que se evada precocemente.

Mas não são as sucessivas transferências de responsabilidade que irão resolver o problema. Pelo contrário, farão com que se agrave, porque, além de mantê-lo intacto, instituem animosidades, muitas vezes intransponíveis, entre os acima citados.

Ao receber o aluno, o professor passa a ser o maior responsável pela sua aprendizagem e deve mobilizar estratégias para que ela aconteça. O que não implica comodismo ao professor anterior.

Também não contribuem para melhorar a aprendizagem as costumeiras perguntas sobre a escola de origem, ou sobre quem foi o professor na série anterior. Tais inquisições só agravam o que já está ruim, porque atacam o aluno no que lhe é mais caro: a sua autoestima. Longe de ser culpado pela frequência a uma escola não tão boa ou por ter passado por professores não tão bons, ele é a grande vítima.

A investigação seria bem-vinda se fosse para saber do professor anterior até onde os conteúdos  teriam sido trabalhados, para que o atual pudesse dar continuidade, ou para detectar lacunas, objetivando implementar os reforços saneadores (monitoria, trabalho diversificado, correção coletiva ou algo que a valha), mas jamais para rotulá-los. A troca de experiência entre professores, em lugar das críticas corrosivas, também contribui decisivamente para melhorar a qualidade do ensino.

Se todos os educadores seguissem tais princípios, estabelecer-se-ia o ambiente de cooperação mútua e  muitos dos problemas de aprendizagem seriam resolvidos sem o gasto de um centavo sequer.

Desejar turmas homogeneamente boas constitui-se no mais perverso fator intraescolar de desescolarização, exclusão social e falência das escolas, mesmo as privadas.
Assim, se é possível aos professores transformar acusações mútuas em cooperação, também o é entre pais e professores, professores e alunos, governantes, professores e mercado de trabalho. Para tanto, é preciso que cada um assuma a sua responsabilidade, ajude e exija que os demais corresponsáveis cumpram as suas.

Em vez dos pais limitarem-se a acusar ou agredir, mesmo que verbalmente, como lamentavelmente vem ocorrendo, por não “tratarem” ou não ensinarem bem os seus filhos, devem primeiro certificarem-se da veracidade dos fatos, acompanharem as lides escolares diárias destes, participarem da gestão da escola, e, se não resolver, conversarem com o referido professor ou com a direção escolar, se necessário.

Continua na edição de amanhã