Só Deus! Essa expressão é muito utilizada quando uma pessoa sente-se impotente diante de um fato dramático ou injusto. Vale para as duas catástrofes de Santa Catarina. A das chuvas, que competiria somente a Ele; e a da cobertura da mídia, que não coloca nenhum ponto para discussão sobre as responsabilidades pelas mortes. Chuva não deve ser encarada como sinônimo natural de morte nunca! Nem mesmo no Brasil, onde tudo pode.

Quando se constroem casas em locais inadequados e são levadas pelas enxurradas, algum órgão seria responsável por impedir, já que a maioria é construída em áreas públicas. Mesmo uma construção em imóvel particular, tem que respeitar todas as normas legais de segurança. Autoridades atuais culpam as anteriores que deixaram construir, mas não se apercebem de que agora deveriam retirar as pessoas das áreas de risco. O argumento vulgar de que não é fácil não pode caber aos órgãos e servidores públicos, sob pena de responsabilização civil e penal, conforme cada caso. Quem tem por dever agir somente deve agir de acordo com sua obrigação. O fácil ou difícil fica para o campo de análise subjetiva. A responsabilidade do estado é objetiva.

Grande parte dos órgãos de comunicação enviou jornalistas para cobertura da tragédia. Eles narram com vozes pausadas. Muitos devem chorar de verdade; outros pela audiência. Pessoas desesperadas são imagens mais comuns. A solidariedade do povo brasileiro é sempre enaltecida. Tudo certo. Só que, numa cobertura de alguma atividade esportiva, sempre levam “especialistas” de cada modalidade para comentar. Neste caso, nenhum veículo de comunicação consultou um geólogo, engenheiro civil, arquiteto, sobre o tipo e a estrutura das casas para determinado solo; sobre a distância dessas casas das eventuais correntezas e encostas, sobre orientação prévia de como agir em casos de chuvas intensas. Nada, absolutamente nada, se fala sobre isso.

Fica clara a omissão quando dinamitaram uma pedra gigante para desobstruir uma estrada. A pergunta óbvia, lógica, cristalina, seria indagar por que a pedra não fora dinamitada antes de causar prejuízo a milhares de pessoas. A resposta é tão óbvia quanto a pergunta. Cada um dá a sua em particular.
Já falaram que o apagão de energia elétrica fora obra da imprevisibilidade. Para as chuvas, esse argumento não serve; mas, com certeza, vão dizer que choveu acima do previsto.

A imprensa brasileira precisa cobrir certos fatos com mais tecnicidade, com maior senso crítico, com maior razão e menos emoção. Ela ajudaria na formação de um senso mais crítico e aguçado nas pessoas. Pela cobertura da mídia em Santa Catarina, passa a certeza de que as mortes são inevitáveis. Mesmo mais de uma centena de pessoas mortas não foram capazes de merecer a crítica contumaz em editorial. Definitivamente, “nada ocorre por acaso”.