Militei no movimento estudantil durante anos e cheguei a ser presidente do Centro Acadêmico de Direito da Unisul. Estou feliz em ver as manifestações que contagiam o Brasil, de todas as classes e idades. Em um país onde a democracia é ainda recente, a juventude inicia um movimento para mudar a ordem das coisas. Sinto-me orgulhoso e revigorado.
 
Aqueles que antes protestavam no computador, agora protestam nas ruas, não mais com a cara pintada, mas de cara lavada. Insatisfação é a palavra de ordem e a “falta de autoridade” compromete e preocupa. A classe política tem que assimilar o novo momento dessa chamada “primavera brasileira”.
 
Não precisamos ir longe para saber os motivos da insatisfação popular. Visitem um hospital, um posto de saúde ou uma escola aqui em Santa Catarina. Eu já fiz isso. Médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde ganham pouco e enfrentam excesso de trabalho. Atendem centenas de pacientes em estruturas pífias. Professores recebem salários vergonhosos, desestimulados a cada ano pela falta de uma política salarial responsável. Sem contar as estruturas precárias de muitas escolas.
 
O cidadão comum tem medo e a segurança pública ganha contornos de desespero. Policiais civis e militares fazem aquilo que é possível. São verdadeiros “heróis” mediante as condições precárias que recebem para trabalhar. Sem contar que todos os brasileiros arcam com uma carga tributária de 35% a 40%, umas das mais altas do mundo, sem ver as suas prioridades atendidas.
 
O movimento mandou um recado também às siglas partidárias e futuros candidatos. Se os manifestantes não conseguiram deixar claro o que querem, ficou evidenciado o que não aceitam mais: o pragmatismo das siglas, praticamente isolando a sociedade dos políticos. Perderam-se as convicções e a ética, surgiram as circunstâncias eleitorais e os interesses.  Porém, lembremos: não existe democracia sem partido político. Eles devem ser revistos e não extintos, sob o risco de acabarmos em uma ditadura. Como disse o ex-presidente americano Franklin Roosevelt, “a democracia não e estática, mas sim uma marcha constante”. 
 
Espero que todo este movimento alcance consequências duradouras. A primeira vitória foi a baixa da tarifa de transporte público. A segunda vitória foi a presidenta da república vir a público iniciar o debate sobre mudanças. Não é o bastante. Precisamos do fim da corrupção, precisamos de saúde, segurança pública, educação e reforma política e tributária.
 
Em diversos outros momentos tivemos bandeiras claras e objetivos concretos. Fomos às ruas pedindo por eleições diretas, pintamos a cara pelo impeachment do Collor, mas, desta vez, queremos muito mais. Queremos ter ainda mais orgulho desse nosso Brasil. Que possamos, daqui um ano, durante a Copa, mostrar ao mundo uma cara nova. A sociedade exige mais ação e menos discurso. Somos muito mais que o “país do futebol”. A hora é agora!