Li uma entrevista muito interessante realizada por uma revista afamada com o padre Marko Ivan Rupnik, um sacerdote esloveno e diretor do Ateliê de Arte Espiritual do Centro Aletti de Roma/Itália. São dele muitas obras de arte sacras espalhadas pelo mundo afora, inclusive os novos mosaicos da fachada da Basílica do Rosário, em Lourdes/França, realizados por ocasião dos 150 Anos das Aparições de Nossa Senhora nesse lugar, que serão celebradas neste ano, também, com a presença do papa Bento XVI. Alguns trechos da entrevista chamam a atenção pela sua perspicácia artística e sua profundidade teológica.

Ao ser perguntado sobre que tipo de arte expressa mais aquilo que é celebrado na liturgia católica, a resposta do sacerdote impressiona: “A arte dos cristãos no espaço litúrgico sempre foi uma ‘arte da presença’. Portanto, uma linguagem essencializada, sem detalhes que levam à distração, na qual tudo – até mesmo o artista e as pessoas às quais a obra é destinada – é assumido no mistério que se comunica.

A grande diferença é esta: uma obra de arte pode suscitar a surpresa e a admiração, mas a arte que entra no espaço litúrgico deve suscitar veneração. A veneração que o simples fiel expressa com o sinal-da-cruz, a genuflexão, a oração: porque a presença de Deus está ali. Não é suficiente que a pessoa diga: maravilhoso! É preciso que haja uma vida lá dentro, que torne possível perceber o mistério presente”.

A pergunta pertinente que segue: “É difícil que alguém chegue a experimentar esses sentimentos (de ‘veneração’) entrando em algumas das igrejas construídas nas últimas décadas…?”. O padre Marko responde magistralmente: “Muitas das igrejas construídas nestes últimos anos expressam uma pobreza espiritual e uma ampla incapacidade de discernimento.

Quando o diálogo com a cultura contemporânea significa a obrigação de encomendar os projetos das igrejas apenas aos arquitetos mais célebres, é óbvio que o diálogo ideologizou-se. Quando construímos uma igreja manifestamos aquilo que somos. Ao longo da nossa história, a igreja-edifício sempre teve como ponto de referência a igreja-pessoas e os mistérios por ela celebrados.

Precisamos ter muito cuidado para não cair na armadilha da dialética ideológica e, assim, dar largas à nostalgia, que recusa as linguagens artísticas contemporâneas. Não devemos assumir uma postura de contraposição à contemporaneidade. É preciso que estejamos atentos às novidades da cultura – na qual nós estamos mergulhados -, sem que isso se traduza em uma submissão mecânica às modas. A humilde fidelidade à tradição é que permite essa abertura ao mundo”.

Aí vem a pergunta fatal feita ao padre artista: “O que está em jogo realmente?”. E a sua resposta é clara: “Ao meu ver, o que está em jogo é a vida. A vida que nós, cristãos, temos, nós a recebemos do batismo. Fomos gerados num parto que é o batismo, por uma mãe que é a igreja. A igreja é imagem da comunhão trinitária, na qual nós, por meio das palavras sacramentais, da água, do evento sacramental do batismo, somos inseridos. Portanto, a vida que recebemos é uma comunhão com Deus, com os outros e com a criação. Isso significa que a vida que recebemos – sua constituição, seu ‘estilo’ – é comunhão e diálogo.

A vida realiza-se, portanto, na comunhão com Deus – oração – com os outros – amor – e com a terra – transfiguração do mundo. Uma comunhão tridimensional organicamente inseparável. A igreja-templo que construímos não pode deixar de levar a que se vislumbre essa vida”.
Para concluir: enquanto lia a entrevista, estava pensando na grande caminhada que ainda devemos fazer neste sentido também entre nós.