Julio Zamparetti – Padre anglicano

Por muito tempo venho pensando sobre o assunto e agora resolvi escrever. Não escreverei sobre o aborto em situações de risco de morte para a mãe, ou em caso de estupro, ou de fetos anencefálicos (situações já regulamentadas pela lei), mas quero falar da descriminalização do aborto. E quanto a isso, a princípio, por uma questão de idealismo e fé, sou absolutamente contra. Simplesmente porque o aborto não é e nunca poderá ser uma alternativa ideal.
O ideal é que nossas crianças tenham boa educação a fim de que sejam orientadas e conscientizadas a respeito da sexualidade, sua importância, consequências e responsabilidades que ela requer. E assim, sejam bem instruídas para que, na hora adequada, possam vivê-la de maneira segura, responsável e honesta com o parceiro e consigo mesmo. Que nossos jovens possam fazer seu planejamento familiar e se, por acaso, uma gravidez não planejada surgir, tenham a maturidade, cumplicidade, responsabilidade e amor necessários para constituírem sua vida familiar.
É importante lembrar que a repressão religiosa e social nunca funcionou para a educação sexual. Só serviu para que tudo e um pouco mais fosse feito às escondidas. O ideal é que nossas crianças e adolescentes não fossem obrigados a engolirem essas porcarias de músicas nojentas expostas pela mídia, que incitam a sexualidade vulgar, deturpam a figura da mulher e distorcem a concepção da importância da sexualidade para qualquer ser humano.
O ideal é que nenhum homem se ache no direito de dominar uma mulher e forçá-la a realizar suas fantasias; que ninguém faça do sexo um objeto de conquista, sem levar em conta o sentimento alheio; e que o sexo não seja a finalidade de nenhum relacionamento, mas um laço entre duas pessoas que se amam e se complementam em todas as dimensões.
O ideal é que, a igreja, em vez de ameaçar de danação a mulher que vier a praticar o aborto, acolha a grávida desamparada e sem norte, dando-lhe todo apoio necessário para que ela possa dizer sim à vida do filho. E caso diga não, que a igreja ainda assim respeite sua decisão, perdoe-a, e, com amor, ajude-a no que for preciso para superar o trauma.
O ideal é que o governo promova mais igualdade social, maior acesso a informação, mais educação e cultura, maior repressão à violência e ao tráfico de drogas, mais oportunidade de trabalho e principalmente, maior amparo à família, à mulher, à criança e ao adolescente. Porque a ausência desses fatores é, por vezes, a causa de muitas mulheres se sujeitarem à prática do aborto. Nesse aspecto, ao legalizar o aborto, o governo tenta eliminar um efeito, sem eliminar suas causas. Meu idealismo e minha fé não me permitem ser favorável ao aborto. Mas não posso tolher o direito de alguém pensar diferente. Além disso, o sim que se diz à vida deve ser dito por amor à vida, e não por uma imposição de idealismo ou fé alheia.
Também não posso fechar os olhos ao fato de que da idealização à realização há um longo caminho, e, até que cheguemos lá, se faz necessário medidas circunstanciais, principalmente, porque a lei em vigência não impede a prática do abordo, apenas a joga para as redes da clandestinidade. Precisamos, sim, conversar e buscar um melhor caminho. Por outro lado, a descriminalização certamente será entendida como um sinal verde para a prática indiscriminada do aborto por pessoas sem consciência do valor da vida, incentivando-as a viverem ainda mais desordenada e irresponsavelmente a sexualidade. Lembre-se que não estamos tratando a respeito de quem quer interromper a gravidez por ter sido estuprada ou por correr risco de morte, nem por ocasião de feto anencefálico, mas sim a respeito de quem transou sem se cuidar e agora diz: “não vou deixar de viver minha vida”.
A igreja, por sua vez, tem todo direito de se posicionar contra o aborto em qualquer condição (como faz, mesmo nos casos permitidos pela atual legislação), mas não tem o direito de impor ao povo que aja segundo o seu catecismo. Ela precisa orientar segundo os seus conceitos, mas amar além deles; e dar a oportunidade de seus filhos seguirem seus conselhos por amor e não por medo do castigo legal ou divino. Antes de me posicionar em relação a uma mulher que tenha a intensão de interromper uma gravidez, preciso me perguntar se estou disposto a ouvi-la, entendê-la e ajudá-la no que for preciso, inclusive dispondo-me a apadrinhar integralmente a criança. Qualquer outra posição seria escapismo de quem exige, mas não se envolve.
Então, depois de feito tudo o que nos cabe fazer, a descriminalização do aborto perderá a razão de ser debatida. Porque teremos atacado o mal na sua causa. Enquanto isso, vale a prudência. Não temos, em nenhuma esfera do poder público, representantes com moral e capacidade para sequer discutir, quanto mais legislar sobre um assunto de tal importância e relevância moral. O planalto está tomado de gente corrupta que só legisla por seus próprios interesses. Certamente estão pensando em se beneficiar, livrando-se de futuros testes de paternidade. Não discordo dos que argumentam que esta é uma questão de saúde pública, mas acho que antes disso, esta é uma questão de educação pública. Não podemos fechar os olhos para os inúmeros abortos realizados em clínicas clandestinas. Mas a descriminalização do aborto não é o único, nem o mais eficaz remédio para isso. A educação sempre foi o melhor remédio, além disso, só ela não tem efeito colateral.
Finalmente, dito isso, continuo contra a descriminalização do aborto. E aproveito o momento para promover a reflexão em que os excessos, de qualquer lado, sejam aparados, e possamos juntos, com diálogo e amor à vida, encontrar o melhor caminho.