Em 2001, há exatos sete anos, num 12 de janeiro, como neste sábado, o Brasil perdia o seu primeiro bicampeão olímpico, o filho único de pai ferroviário e mãe cozinheira, Adhemar Ferreira da Silva. Hoje, quase não se fala mais nele, o super-atleta negro que revogou, com seu corpo esguio e elegante e suas pernas longilíneas, um recorde olímpico que perdurou por 14 anos, de 1936 a 1950!

Aquele menino negro, franzino e pobre cresceu desafiando todas as probabilidades que o mundo lhe reservara. Mais tarde, ele relembrava isso:
“O homem, quando vem ao mundo, não sabe para o que vem, ou para onde vai. Graças ao esporte, eu fui longe, escapei das drogas e da violência”.

Adhemar Ferreira da Silva foi o nosso herói olímpico, que superou o recorde mundial do salto triplo, que pertencia o japonês Naoto Tajima, autor de uma marca (16 metros de extensão) que era considerada intransponível para as possibilidades humanas.

A sua trajetória vencedora começou em dezembro de 1950, quando pulou os mesmos 16 metros do decantado atleta japonês. Em 30 de setembro de 1951, quebrou o recorde, com um centímetro a mais. Em 1952, nas Olimpíadas da Finlândia, foi aumentando o seu desempenho: 16,05m, 16,09m, 16,12m, até ganhar, com sua célebre marca 16,22m, a primeira medalha de ouro olímpica.

Nos jogos seguintes, na Austrália, em l956, conquistou, novamente, a medalha de ouro, estabelecendo, com 16,35m, novo recorde olímpico. No Pan de 1955, no México, conseguiu, 16,56m, tornando-se recordista mundial pela quinta vez.

Convidado pelo jornalista Samuel Wainer, foi colunista da Última Hora, algo impensável para um atleta daqueles tempos. Mas não para Adhemar, formado em direito, belas artes, relações públicas e educação física. Além disso, falava inglês e francês, o que o habilitou a ser adido cultural do Brasil na Nigéria. Por todos esses méritos e atributos, foi ator do filme Orfeu Negro, premiado, em 1959, com a Palma de Ouro, no Festival de Cannes.

Tive o privilégio de conhecê-lo. Era elegante em tudo: no falar, no vestir, no servir-se à mesa. Certamente, sem a escolinha de atletismo e sem o São Paulo (pelo qual competiu quase o tempo todo), os seus muitos talentos seriam desperdiçados, como o de milhares de crianças pobres deste país.