Artur Salles Lisboa de Oliveira
especialista em Escrita Criativa pela Universidade de Berkeley – Califórnia

www.artursalles.wordpress.com

Alguma coisa mudou, com certeza. Tenho visto ex-jogadores e comentaristas esportivos se referindo “aqueles que dizem que o país tem muitos problemas e que futebol não deveria ser prioridade”. Pasmem os senhores(as): aqueles que se opõem à celebração da Copa do Mundo já são ouvidos e, melhor, comentados. Bom sinal. As manifestações de rua, a derrocada de uma presidente da república, a prisão de um ex-presidente, dentre muitos outros, é fruto de um processo de conscientização política da população. Ah, mas olhem para a belíssima música patrocinada pelo maior cobrador de juros do Brasil e, provavelmente, do planeta; ainda vale a pena torcer pela seleção brasileira.

O grande problema de torcer pela seleção brasileira é que na minha cabeça não entra a ideia que para um país de 200 milhões de habitantes com pessoas talentosas, capacitadas, esforçadas, batalhadoras, o campo de futebol possa ser o único palco de glórias e vitórias. Eu não consigo respeitar a opinião alheia quando ouço que “o Brasil é uma potência do futebol”. O futebol oferece uma alegria efêmera, que termina na segunda-feira seguinte à final da competição. As pessoas enchem a cara, “faltam” ao trabalho, comemoram e no dia seguinte a dura realidade de um país em recessão econômica com índices vexatórios de corrupção e indicadores sociais alarmantes bate à porta dos brasileiros. Ah, mas olhem, o pezinho do menino Ney está melhor e a emissora do “plim plim” passou 30 minutos dando zoom no pé do “ídolo” para se certificar que ele está realmente bem. O quinto metatarso o assunto mais comentado do Brasil.

Será que estou sendo rabugento? O país está em festa, as pessoas estão animadas e ansiosas pelos jogos da seleção brasileira. Olhem quantas bandeiras esvoaçantes penduradas em carros. Será que os brasileiros não merecem uma pausa para participar de um evento global na qual nossas chances de vitória são substanciais? A Copa do Mundo, lembremos, é a única oportunidade do Terceiro Mundo – a favela do mundo – ser ouvido, comentado e de alguma forma também invejada. Mas pelo que exatamente? Por empurrar uma bola para dentro de um gol mais vezes do que os adversários. Não estou desmerecendo o esporte; estou refletindo acerca de uma população que esvazia as cidades em feriados prolongados e na segunda-feira lamenta a recessão. Aliás, que país bom para se viver: dezenas de feriados todos os anos. Em ano de Copa adicione mais alguns dias de “descanso” porque poucos trabalham em dia de jogo da seleção. Afinal, é dia de bater no peito, abraçar a bandeira e gritar, “Sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor”. E aí fico pensando…

Esse patriota que bate no peito para externar o seu amor pelo Brasil provavelmente tem um cargo comissionado oferecido por um político corrupto que apareceu nas manchetes “politicialescas”. Esse mesmo cidadão – não duvidem – deve acumular algumas multas por descumprimento das leis de trânsito. Provavelmente por conta do aperto financeiro imposto pela grave recessão econômica, o patriota que beija a bandeira deve estar com alguns aluguéis atrasados, mas o amigo advogado dele disse que não há motivo para preocupação. E de jeitinho em jeitinho, de malandragem em malandragem, de “deixa para depois” em “deixa para depois,” o patriota vai manchando a bandeira nacional com o preto da vergonha. Mas olhem, o Neymar fez um gol – somos hexacampeões mundiais! Viva o Brasil!