M aria vai ao posto de saúde ver o médico e diz que nos últimos tempos está um pouco cansada, desanimada. Não sendo de se estranhar, leva consigo a receita de Fluoxetina. João diz que o sono não anda muito profundo e que ainda antes do galo cantar já não cabe mais na cama: leva dois miligramas de Rivotril. Ana conta que a Virgem Maria apareceu para ela, dizendo para não se preocupar com o filho, que este está sob os cuidados de si – lá vai um haldol, mas só até ficar pronto o processo para o estado fornecer o Zyprexa, que isto sim é que é moderno. Rogério fala que dia está meio deprimido, dia dá uma vontade enorme de agradecer aos céus pelo sol, pelo mar, pela mulher, pela vida. Adivinhem? Um Carbolitium, sim senhor!

O tom de trivialidade e o diagnóstico simplificado à banalidade que se pode ler acima seriam sem nenhuma relevância se não refletissem exatamente o que se passa em muitos lugares oferecidos para tratamento do mal-estar psíquico. Entre profissionais da saúde pública, repete-se, de maneira jocosa, que mais vantagem seria diluir na caixa d’água da cidade boas doses de fluoxetina e rivotril. Assim, se poderia tratar em longa escala este povo que em quase unanimidade se diz doente, que tão distantes estão da tão sonhada felicidade, daquele ponto de equilíbrio em que tudo, tudo deveria funcionar bem.

Poderíamos perguntar: Onde se encontra a felicidade? Ao que alguma voz poderia responder:
– Em supermercado, pela internet, no morro, em boutique de luxo, na farmácia.
E têm dois tipos básicos de felicidade, dá para escolher: podemos ter a felicidade de não sentir nada ou a felicidade de sentir tudo.
Nosso diálogo continuaria:
– Mas é possível mesmo não sentir nada, dor alguma?
– Sim, sim, é só aumentar a dose de vez enquanto, ou mudar o fabricante, o negócio está sempre evoluindo, sempre coisa nova na prateleira.
– É tão fácil mesmo ser feliz? E os tais efeitos colaterais?
– Efeitos colaterais? É… a maioria engorda um pouco, mas tudo bem, é só usar uma pílula de outra cor que emagrece. Bem, a cabeça também fica um tanto devagar, mas já dizem uns velhos sábios: quem pensa muito acaba enlouquecendo.

A debilidade mental em troca de não sentir nada é uma versão da felicidade contemporânea. A indústria (ciência e mercado aliado) oferece uma ampla variedade de silenciadores do que é mais íntimo, que dizem, é o que faz sofrer. Amputa-se a dor e vai o sujeito junto. Algum preço tem que se pagar…
Há também outra felicidade, que é a de sentir tudo. Carpem diem! Este é o mundo das múltiplas possibilidades, da queda da perversão, já que quase tudo é permitido, onde o que vale é a experiência. Sentir tudo é gozar, gozar, gozar, a marca feroz de uma pulsão de morte que se repete infinitamente em uma avalanche de confrontos diretos com os objetos de consumo. E assim, sentindo tudo, nos encontramos obesos de experiências, alucinados de experiências, endividados de experiências e até mortos de experiências.
Seriam estas nossas únicas opções?