A relação entre estado e igreja, cuja separação na verdade nunca existiu na prática, agora se apresenta em outro formato. Os membros dessas novas igrejas estão espalhados pelo parlamento nacional, firmando bancadas na defesa de seus interesses espúrios e na manutenção de suas regalias, dentre as quais a imunidade tributária constitucional e a vista grossa das autoridades em relação às suas práticas desonestas. A situação é a mesma como fora no passado, quando o clero gozava de seu imenso poder e dividia com os monarcas os seus espólios, frutos das extorsões praticadas contra seus fiéis, que doavam fortunas, iludidos de que estariam a comprar um lugar no céu.

Até mesmo um observador pouco atento pode perceber que quando um líder de uma dessas verdadeiras organizações criminosas se destaca e passa a arrebanhar uma fatia maior de otários, aos quais eles chamam de rebanho, logo um de seus pares, leia-se concorrente, passa a usar de todas as suas influências midiáticas para desconstituir a falsa boa imagem que seu colega de falcatruas construiu.
Causa profunda indignação testemunhar essas práticas cotidianas e ao mesmo tempo sentir constrangimento em criticar as pessoas que as professam, pois é notória a dificuldade que temos em mudar a programação de nossos cérebros e livrar-nos das velhas crenças que nos são inatas.

Como podemos continuar até hoje, admirando, cultuando, e reproduzindo toda essa ladainha insana às gerações vindouras? Que sentido faz cultuar aquela imagem sangrenta de um ser humano moribundo preso a uma cruz? Que motivos reais nos são apresentados para podermos denomina-lo como sendo ‘o filho único de deus’?
Muitos nunca param a pensar nisso. Têm medo. Um temor arraigado em suas almas pela cultura opressiva em que nasceram.
Como podemos chegar para uma pessoa crente, de fé inabalável, com a cultura trazida do berço, propalada por seus antepassados, e dizer: ‘tu estás errado, meu amigo, és vítima do maior engodo da história!’?

O mais intrigante é que temos um mundo dividido historicamente entre o oriente e o ocidente, sendo que no mundo oriental tudo é diferente, a maioria de lá sequer ouviu falar do mito de Nazaré. Alguns tampouco conhecem o nome do crucificado. Não serão eles também ‘filhos de deus’?
Muitos continuam cegos a cultivar essa coisa toda a qual chamam de ‘o sagrado’, e todos os ‘mistérios’ que cercam o assunto. Alguns mais céticos e questionadores já vislumbram no horizonte a luz da razão e ouvem o seu grito a ecoar pela esfera terrestre.

Quando chegará, enfim, o tempo em que aceitaremos a nossa humanidade, nossas fraquezas, defeitos, anseios, frustrações, e toda a sorte de máculas e qualidades que nos fazem de carne e osso sem ter que jogar a responsabilidade em algum ser invisível, hipotético, supostamente criador dos céus e da terra? É muito fácil jogar a culpa toda naquele da cruz e afirmar que ele nasceu e morreu para perdoar nossos pecados. O Salvador. O Redentor. É o que dizem. Quão absurda essa afirmação! Preguiça e cobardia de quem não quer assumir o ônus de seus próprios atos!

Um dia acredito que nos encontraremos a nós mesmos quando do amor verdadeiro ao próximo. Não precisaremos mais de toda essa mitologia nem desses espetáculos teatrais a vender uma falsa salvação. Perceberemos que o chamado ‘reino dos céus’ está dentro de nós, e que não carecemos de igreja alguma, tampouco de ídolos, para nos proporcionar essa sensação, pois ela vem de dentro, não de fora.
O verdadeiro nazareno, ou qualquer outra personificação do bem, se encontra na atitude, na prática dos bons costumes, na caridade sem contraprestação presumida, enfim, no Amor Verdadeiro.
”Esperamos pela luz, mas contemplamos a escuridão” – (Isaías 59:9).