“Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez”. (José Saramago). 
 
“Uma das lições mais tristes da história é a seguinte: se formos enganados por muito tempo, a nossa tendência é rejeitar qualquer evidência do logro. Já não nos interessamos em descobrir a verdade. O engano nos aprisionou. É simplesmente doloroso demais admitir, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados. Se deixamos que um charlatão tenha poder sobre nós, quase nunca conseguimos recuperar nossa independência. Por isso, os antigos logros tendem a persistir, enquanto surgem outros novos”. (Carl Sagan).
 
Uma cruz de madeira, um homem seminu pregado a ela por cravos de ferro, a sangrar, num estado de quase morte. Um quadro muito conhecido, a maioria de nós cresceu vendo esta imagem nas paredes de nossas casas, e, pasmem, em alguns estabelecimentos públicos também. Conforme conta a história, por si só duvidosa, aquele da cruz havia sido condenado por desafiar um rei de sua época, dizendo-se também rei; desta feita, porém, um rei diferente, o rei dos judeus. A palavra rei por si só já soa desafiadora, opressiva, e gera receio naqueloutros que se travestem da mesma denominação. Esse mesmo da cruz, por motivos históricos um tanto quanto obscuros, passou ser conhecido como ‘o filho único de deus’.
 
A igreja edificada em seu nome por um astuto imperador romano, que se valeu da popularidade que o crucificado havia conquistado por suas palavras, existe até hoje, e é a causa do maior atraso na evolução científica, intelectual, e moral de nossa espécie, ao menos aqui no mundo ocidental. Muitos foram assassinados, massacrados em nome daquele deus por essa igreja sanguinária, nossos companheiros de caminhada evolutiva aqui no planeta. 
Até nos dias de hoje as práticas ritualísticas dessa igreja milenar beiram o canibalismo, haja vista encenarem em seus cultos o consumo de carne e sangue humanos.
 
Tal igreja, porém, vem perdendo gradativamente sua popularidade, não somente pelos motivos acima expostos, pois parece que seus fiéis adoram a cegueira e cultuam-na durante toda uma vida, mas pura e simplesmente porque ela não acompanhou a evolução dos tempos, por arcaica que é, abrindo, assim, espaço para as novas igrejas.
 
Estas novas igrejas já não têm mais sacerdotes a usar indumentárias carnavalescas, repetindo suas orações sem se concentrar nas palavras, mas apenas um tagarelar infindável de palavras ao vento. Agora seus representantes usam terno e gravata, alguns usam chapéu de vaqueiro, outros uma bata branca. 
 
Mas praticamente todos, salvo raríssimas exceções, exercem a mesma função que a igreja medieval: explorar a credulidade e a ignorância das pessoas menos esclarecidas e lhes arrancar o pouco dinheiro que têm, dissimulando esse golpe em ajuda humanitária, ou salvação dos pecados.
 
Contam historietas bonitinhas em seus templos suntuosos e seus programas em rede nacional de TV, focalizam em close up páginas da ‘bíblia sagrada’, a qual é denominada inexplicavelmente de ‘a palavra de deus’, não levando em conta, ou talvez justamente o inverso, o quão temerário é atribuir tal adjetivo a um mero compêndio literário de uma época remota, que passou por incontáveis traduções ao longo do tempo, perdendo boa parte do significado real das palavras, e tentam interpretar o que lá está escrito sempre em seu favor e em favor de seus próprios bolsos, pois na sequência, quase sempre vem o momento onde aqueles homens, que de santos não têm nada, concluem sua trama com o golpe fatal nos crédulos: fisgam o seu bolso! 
(Continua na edição de amanhã).