A atual situação do ensino médio nas escolas brasileiras, comprovada por estatísticas de mau desempenho, desinteresse e evasão, requer que sejam tomadas medidas para arejar o segmento. Sem dúvida, é preciso não só torná-lo mais efetivo para os que o cursam, como também incluir os que estão fora dele. Por isso, de antemão, considero necessária uma série de alterações no ensino médio.

No entanto, diante das medidas divulgadas, precisamos levantar alguns pontos  que, se não forem bem planejados e executados, podem agravar o que não está bom. A título de contribuição, nunca custa lembrar que o mundo dos projetos no papel é mais facilmente desenhado que sua efetiva implementação.

Por isso, como educadora, compartilho algumas dessas dúvidas. 
1. Como professora, minha percepção era de que uma das razões do desinteresse dos alunos era o excessivo aprofundamento das matérias: mini-graduações, antes das graduações. No entanto, isso sempre esteve muito ligado à programação exigida pelos processos seletivos e vestibulares. O próprio Enem caminhou na direção do aprofundamento conceitual nos últimos anos.

Será possível reformar o ensino médio, se os vestibulares continuarem a cobrar conteúdos aprofundados? A escolha de uma área de interesse na metade do curso não traz o risco de aprofundar ainda mais a abordagem destas disciplinas, de forma que o interesse pela área ou disciplina novamente se perca?

2. A escolha da carreira no Brasil se faz de maneira precoce. É difícil pensar que um jovem de 17, 18 anos, consiga fazer uma escolha madura da profissão ou da área na qual pretende atuar. Vi inúmeras vezes jovens chegarem às portas da inscrição no vestibular inseguros e cheios de dúvidas em relação a quais caminhos trilhar.

Qual o risco embutido nesta escolha de área de estudos, ainda no 2º ano, de antecipar ainda mais a escolha? O que ocorrerá com um aluno, se optar por uma área de conhecimento no 2º ano e descobrir no 3º novas inclinações?

3. A estruturação das escolas é absolutamente importante para o sucesso das propostas e para a boa formação dos jovens. Sem ela, os planos e intenções se desvanecem rapidamente. Temos assistido nos últimos anos a tentativas de “racionalização” de redes públicas, com eliminação de salas “ociosas” e até fechamento de escolas. No campo das escolas particulares, salas com poucos alunos inviabilizam o funcionamento da instituição no médio prazo.

Estamos preparados para lidar com realidades nas quais, eventualmente, apenas 10% dos alunos escolham uma determinada área no 2º ano? Será assegurada a esta minoria cursar o que escolheu? Ou as planilhas falarão mais alto e eles serão “convidados” a migrar de área, para otimizar recursos?

É possível elencar outra série de dúvidas: tempo de transição do novo modelo, bases científicas que embasam esta mudança, abordagem de questões estruturais tais como formação e salário dos professores, adequação de materiais didáticos, etc, etc.

Mas não se pode deixar de registrar estranheza com a timidez das reformas. Em vez de manobrar com escolhas de áreas conceituais, já não está na hora de se pensar em novas ofertas de formação, que ultrapassem a dimensão das disciplinas e, de fato, tragam para a sala de aula novos elementos de formação? Não vejo ações sistemáticas para o desenvolvimento real de habilidades necessárias à vida social nem embasamento emocional para os jovens nestes tempos difíceis e multifacetados em que vivemos.

Em suma, o sentimento ainda é de frustração. Espero que novos esclarecimentos do MEC nas próximas semanas mudem esta sensação.

O Brasil precisa e merece.