Quinze de outubro é dia do professor e dia de Santa Teresa de Ávila, a Teresa Grande, já que temos também a Teresinha de Lisieux, que não é menor em estatura ou grandeza moral, mas em estilo: o caminho da Teresinha é o pequeno caminho dos que passam pelo lado dos obstáculos ao invés de por cima deles (chega-se, do mesmo jeito, e com menos fadiga). O caminho da Teresona (li todos os seus livros) é mais complexo (Castelo Interior), mas não é complicado.

Teresona foi, digamos assim, mulher de (bons) negócios, e a Teresinha, mesmo não se deslocando de Lisieux, é a padroeira das missões. As duas Teresas são, oficialmente, doutoras morais e intelectuais da igreja, como Agostinho e Tomás de Aquino. Almas belas orientadas por cérebros bem exercitados. Aliás, não existe, na igreja católica, ao menos oficialmente, a figura do “santo burro”. Generosidade + racionalidade = santidade (sanidade).

Tão intragável quanto o suposto “santo burro” é o real professor-almofadinha: aquela coisinha medíocre, minimalista, meio zumbi que “repassa” conhecimentos aos seus alunos. O professor-almofadinha divide seu tempo entre as folhas amareladas usadas por ele para “repassar” conhecimento (sic!) e a poltrona onde acompanha assiduamente as várias novelas televisivas (ópio do povo e de alguns supostos intelectuais).

Na universidade, a meta excelsa do professor-almofadinha é o currículo lattes (também importante), e não a sociedade. Diferente da figura imaginada por quem associou professor e Teresa de Ávila (Pedro I): professor bom cuida do lado de dentro e de fora das escolas; cuida da alma (santidade-ética) e do cérebro (racionalidade) da sociedade. A cidade (terrestre e/ou celeste) é a razão de ser das boas escolas, universidades e mosteiros (amor mundi).

O professor-professor não é herói nem revolucionário. É o que o italiano Antonio Gramsci chamou de intelectual orgânico: em primeiro lugar, é um intelectual! Pensa muito porque gosta de pensar, mas não pensa inutilmente: pensa e age de forma orgânica para tornar a sociedade melhor. O intelectual orgânico, ao contrário do professor-zumbi-almofadinha, compreende a educação (fora e dentro da escola) como meio para tornar a sociedade melhor (para todos). É um intelectual competente, pensador crítico e criativo envolvido com os desafios de sua comunidade, cidade, país; envolvido com os desafios do mundo por meio do magistério da química, física, matemática, biologia, etc.

E se alguém afirmasse que as disciplinas citadas seriam disciplinas “técnicas” e não “humanistas”, você, junto comigo, certamente surtaria! Tudo o que o ser humano inventou (cultura) – inclusive química, física, matemática, biologia – serve para tornar a vida melhor e não para tornar possível a sobrevivência econômica dos “repassadores” profissionais de conhecimentos. O professor-professor traz o mundo para a sala de aula e leva a sala de aula para o mundo, para torná-lo melhor.

Intelectuais orgânicos: Tomás de Aquino, que escreveu a Suma Teológica como “livro de bolso” para seus co-irmãos dominicanos; Agostinho, que escreveu pensando na conversão das pessoas e da sociedade; Karl Marx, que não queria apenas estudar o mundo, mas transformá-lo; Eduard Bernstein, que aplicou a mesma regra de Marx, mas em sentido reformador (social-democracia); Darcy Ribeiro; FHC; Fogaça; Gabeira; etc. Em Tubarão, também temos intelectuais orgânicos. Para citar somente alguns: Carlos Ghislandi; Felipe Felisbino; prof. Paulão; Valdézia Pereira; etc.

Enquanto a cidade ferve, os professores-almofadinhas (de escolas e universidades) bocejam entediados… As cidades fazem a chamada: “Professor?”. Alguns, infelizmente, ainda não podem responder com um forte, convicto: “Presente!”.