Víctor Daltoé
Geógrafo pela UFSC
victordaltoe@gmail.com

A direita e a esquerda brasileiras costumam acender a tocha da ideologia na hora de observar a cartografia da nossa política externa. E isso é gravíssimo. As relações exteriores de um país são um dos núcleos da sua existência e seus representantes devem agir sempre em nome do interesse nacional, e não inoculados por qualquer ideologia como nas últimas décadas.

Durante os governos do lulopetismo, o Itamaraty foi ocupado por um setor mergulhado na ideia de que o Brasil fazia parte de um mítico “Sul global”. Este era necessariamente rival de um “Norte global” liderado pelos Estados Unidos, levando o Brasil a uma cruzada por um mundo multipolar. Agora, os primeiros gestos de Bolsonaro são sinais do que será um política externa com um sotaque novamente ideológico. Como no lulopetismo, mas virado do avesso. Um exemplo disso é o caso da transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, anunciada previamente por Bolsonaro, o que prejudica o enorme comércio exterior que o Brasil possui com os países árabes, inclusive por parte das agroindústrias de Santa Catarina. O interesse nacional está anestesiado por novas doses cavalares de ideologia.

As relações exteriores representam um setor do Estado onde a tradição e os costumes antigos são sempre muito fortes, tornando sempre necessários muito comedimento e prudência no pensar e no agir. As palavras devem ser ditas com muita moderação para não ativar tensões adormecidas ou rusgas desnecessárias em um mundo dividido em aproximadamente 200 Estados independentes e sempre potencialmente rivais. É esse tipo de atitude moderada que Donald Trump não está tomando nos Estados Unidos, ignorando o que são os interesses nacionais do próprio país e retirando-o de sua posição de pilar no campos de forças mundial onde tradicionalmente os Estados Unidos exercem enorme influência. Assim, abre espaço para as outras potências mundiais, como a China. Afinal, não existe vácuo de poder.

Jair Bolsonaro tem se comprometido a um alinhamento incondicional não com os Estados Unidos, o que já seria uma forma de se esquivar do interesse nacional brasileiro, mas a uma aliança apaixonada com Donald Trump, o que é ainda mais perigoso. Caindo nessa armadilha, o presidente eleito tenta abandonar a maneira ideológica como o Partido dos Trabalhadores (PT) guiou a política externa nacional virando-a do avesso. Mas, o avesso ideológico promovido por Bolsonaro é o contrário do interesse nacional. O pêndulo ideológico entre a direita e a esquerda brasileiras continua batendo num relógio cujos ponteiros giram para o passado.