“A ntigamente, canonizávamos nossos heróis. O método moderno é vulgarizá-los”. (Oscar Wilde).
É um fato, no mínimo, curioso a pouca reverência que tanto nós, brasileiros, quanto os portugueses devotam a Pedro Álvares Cabral. Seu feito é repetidamente minimizado pela versão de que a descoberta do Brasil deu-se por acaso: em razão das calmarias, as correntes marítimas teriam empurrado a frota lusitana para o litoral baiano.
 
Devem ser raras as cidades brasileiras que não tenham uma grande avenida com os nomes de Getúlio Vargas ou de Juscelino Kubistchek. Agora, pense rápido: na sua cidade, ou qualquer outra que você conheça, há uma grande avenida com o nome do nosso descobridor?
 
Em Lisboa, apenas em 1940 (!) foi inaugurado um monumento em homenagem a Cabral, na avenida que recebeu seu nome na freguesia de Santa Isabel. E a estátua foi um presente do governo Vargas ao povo português (!).
 
Cristóvão Colombo tem até um país que o homenageia – a Colômbia. E não virou nome de continente – América – graças a um erro do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, que, escrevendo em latim, denominou “Americi Terra vel America” (Terra de Américo ou América), atribuindo ao italiano Américo Vespúcio a descoberta de Colombo. Prevaleceu também América para compor com a tradição feminina dos nomes demais continentes: Europa, Ásia, Oceania, África. Ou seja, Vespúcio virou nome de continente apesar de não tê-lo descoberto, e o nosso descobridor nem nome de avenida merece.
 
Apesar dos lucros extraordinários resultantes da venda das especiarias trazidas pela expedição de Cabral às Índias, o que reforçou as finanças da Coroa Portuguesa e ajudou a lançar as bases do Império Português, Cabral foi preterido quando uma nova frota foi reunida para reforçar a presença portuguesa na Índia, isso porque tivera uma desavença com o rei Dom Manoel I.
 
As realizações cabralinas caíram no esquecimento por mais de 300 anos, havendo poucos registros sobre a parte final de sua vida, além do fato de que viveu anos de desilusão e tristeza após ter-lhe sido negado o comando da frota que seguiu poucos anos depois para o Oriente. Só depois da independência do Brasil, já no século XIX, é que sua reputação começou a ser reabilitada pelo nosso Imperador, Pedro II. Não obstante, embora seu prestígio tenha sido ofuscado pela fama de outros exploradores da época, Cabral é hoje considerado uma das personalidades mais importantes da Era dos Descobrimentos.
 
O que significa que, ainda que o velho provérbio “O tempo é o senhor da razão” tenha sido banalizado pelas camisetas usadas pelo ex-presidente Collor, isso não lhe tira a veracidade e precisão.
 
Neste domingo, 16 de janeiro, fazem exatamente 510 anos que Pedro Álvares Cabral deu início à sua viagem de volta a Portugal.
O cientista, político e diplomata norte-americano Benjamin Franklin, cujos 305 anos de nascimento serão lembrados nesta segunda-feira, dizia: “É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glória, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito nem sofrem muito”. E concluía: “É no espírito que está toda a verdadeira grandeza”.
 
Pedro Álvares Cabral foi grande. Canonizá-lo seria um pecado, vulgarizá-lo, um erro. Homenageemo-lo devidamente.