Atarde caía, e o sol já se escondia no horizonte. As ruelas da favela estavam molhadas a essa hora do dia, consequência das chuvas que estavam assolando a região.
Os casebres construídos artesanalmente de tábuas velhas, compensados e até papelão davam ao lugar um aspecto tosco e triste aquele cenário. Não se via uma árvore florida, uma flor sequer. A única nota destoante neste contato era o revoar dos pássaros e seus cantos. Mas como? Não havia árvores nem flores, mas, como por um milagre, eles davam a sua contribuição naquela paisagem bucólica, parecia uma orquestra afinada, uma sinfonia de alegria no ar. Como a dizer aqui há vida! 
 

Ajusto meu olhar e, num exame mais minucioso, percebo que, em um casebre, brinca uma criança, com mais duas e três. Correm elas ao redor das casas. São folguedos de crianças, que não entendem de flores, de árvores, de pássaros, apenas brincam. Seus rostos sujos de terras, seus pés descalços no chão molhado e frio e sua seriedade no brincar não mostram suas necessidades, apenas sorriem, e seus sorrisos se multiplicam em vários daqueles casebres pobres, como também a dizer ‘aqui há vida!’.
 

Apuro a minha percepção, sensibilidade, e um sinal de alerta soa em minha consciência, despertando-se para uma realidade cruel, os pássaros estão em seu habitat natural, cantam porque têm suas necessidades supridas, voam para lá e para cá porque suas asas sadias permitem. Mas e essas crianças? Os menores deveriam ser cuidados por um adulto as maiores por um professor, mas estão ali sozinhas, sem cuidados, sem afeto, sujeitas a toda sorte de riscos.
Algo destoa nesta paisagem, da mesma forma que a ausência de árvores para os pássaros, há ausência de direito para essas crianças. Mas eles não param de sorrir, como os pássaros não param de cantar. É como se quisessem dizer que as suas necessidades não supridas são compensadas pela musicalidade e alegria daquelas aves.
 

A luz do sol agora já se apagara de todo, os pássaros já se recolhem a seus ninhos em algum lugar, num contato afetivo com seus pares, mesmo que de forma instintiva. Mas as nossas crianças rindo estão fora de seus ninhos, seus olhares perdidos como a buscar algo que se foi, que se perde. Seria o canto dos pássaros? 
Neste momento, sinto como se aquelas crianças também tivessem asas, que quisessem voar, que quisessem um ninho seguro, uma família. E, apurando mais meu olhar envolvido numa emoção profunda, percebo que elas são sim aves, mas com as asas feridas, sem direito a voar, a sonhar, mas continuam a sorrir, porque elas são essência da vida.