-Mas isso só vale para os índios que não estão integrados com a sociedade, e vivem isolados.
– Há controvérsias!
– Deixa pra lá. Mas, pra quem quer se livrar de flagrante por desacato alegando desconhecimento de lei, você até que está sabendo demais!
– “Poise”, a gente tem que ficar ligado nos nossos direitos, “né”! Ademais, não preciso saber de tudo, só do que me interessa pra poder salvar a minha pele.
– Bem folgadinho você! Como conseguiu tirar a carteira de habilitação se é avesso às leis?

– Eu sou índio, mas não sou burro! Sempre tem um jeitinho. Um dia eu te conto! Mas, diz aí… Vai me liberar, ou não vai?
– Tudo bem, eu até libero o senhor sem notificar, mas vai ter que colocar o cinto de segurança antes de sair, e se retratar pela sua má educação comigo.
– Certo, seu guarda, me desculpa, eu me excedi um pouco. Já estou colocando o cinto de segurança. Eu nem sabia que existia um Código de Trânsito. É porque na minha tribo ficamos concentrados no nosso trabalho, que é, basicamente, pintar, bordar, e esquecemos do resto do mundo.

– É, mas aqui, na civilização, as coisas não são como você pensa! Mas, pra encerrar o assunto, já que o senhor está com todos os documentos em dia, e se dispõe a colocar o cinto de segurança, vai ficar por isso mesmo. Mas que sirva de aviso, se eu pegar o senhor novamente cometendo irregularidades no trânsito ou desacatando os agentes vou lhe notificar e lhe prender. Nem vou querer saber se você é índio, ou sei lá o que quer que seja! Estamos combinados?

– Combinadíssimos!
O índio cidadão ligou o veículo engatou a primeira marcha e, quando estava arrancando o seu automóvel para ir embora, Alberto, movido pela curiosidade, lhe fez uma última pergunta:
– Onde fica sua tribo?
O índio não respondeu com palavras, tirou do bolso uma carteira de identificação e entregou nas mãos de Alberto, que leu e ficou surpreendido com o que estava escrito:
Nome: Juruna Rombo Estrondozo.
Endereço: Câmara do Congresso Nacional – Praça dos Três Poderes – Brasília – DF.
Ocupação atual: senador.

Alberto ergueu a cabeça na direção do índio cidadão político, ficando face a face. O índio deu um sorrisinho sarcástico, típico dos políticos mais habilidosos, e falou:
– Nessa tribo, somos todos intocáveis.
Alberto ficou confuso com aquela situação, não sabia ao certo onde ficava a tribo daquele homem. Em Brasília, ou em algum ponto da Amazônia? Não entendia se ele dizia que em sua tribo todos eram intocáveis e inimputáveis pelo fato de serem índios, por serem políticos, ou por ambos os motivos? Alberto entrou em parafuso, ele olhava para o índio e via um político, olhava para o político e via um índio.

Sua visão estava embaçada, ora ele enxergava naquele homem um índio vestido de terno e gravata, ora parecia ser um político eloquente vestido de tanga e com penacho na cabeça. No devaneio de sua mente, ficou impossível distinguir as vestes, já não sabia mais se ele estava diante do índio, ou do político; parecia tudo uma coisa só.