Diante das decisões de aprovação do aborto, como cristão católico, sinto-me na obrigação de manifestar minha fé e minha opinião frente a este fato, demonstrando que nós, cristãos, defendemos a vida humana, não apenas por ser um bem natural, mas por ser o maior dom que Deus nos deu.

É necessário oferecermos às pessoas uma sadia compreensão dos fatos, para que não sejam enganadas pelos argumentos utilizados em favor do aborto.
Para tanto, quero apresentar, de forma sintética, algumas idéias que podem ser utilizadas como argumentos nos debates com a sociedade e com aqueles que são favoráveis ao aborto. Tomo como base princípios éticos e cristãos, procurando refutar os argumentos apresentados.

1) O início da vida: há uma grande divergência quanto ao começo da vida, pois inúmeros biólogos apresentam posições diferentes quanto ao seu início. Para nós, cristãos, cabe a idéia de que, já no momento da concepção, quando o gameta masculino (espermatozóide) une-se com o gameta feminino (óvulo), estamos diante de um novo ser, totalmente diferente geneticamente do pai e da mãe, portanto, um novo filho de Deus, que deve ser amado e protegido, pois goza de direitos inalienáveis, como o direito à vida. Em muitos lugares, o estado pretende dizer quando tem início a vida. Mas quem deve determinar o momento do início da vida é a biologia, não o estado, não a lei, visto que a vida é um acontecimento natural, e não um fato jurídico.

2) A mulher pode decidir sobre o seu corpo: com certeza, este é um dos argumentos mais utilizados pelos abortistas, e devemos refutá-lo, usando a seguinte idéia: assim como a mulher tem direito sobre o seu corpo (direito este que tem limite, visto que somos propriedade de Deus, e não podemos dispor da vida do jeito que quisermos), a criança que está no ventre também tem direito sobre o seu corpo. Embora esteja no corpo da mulher, a criança não faz parte do corpo dela.

3) Aborto em caso de estupro: sem dúvida alguma, o estupro é um ato repugnante, que vem ocorrendo com maior frequência nos últimos tempos. Entendemos que a mulher que é vitima de um estupro sofre inúmeras consequências físicas e psicológicas, que podem ser agravadas se deste ato resultar uma gravidez. Não negamos, portanto, o sofrimento da mulher. No entanto, entendemos que matar a criança, fruto deste ato, para superar o trauma, não é a melhor alternativa.

Além disso, estaríamos punindo a pessoa errada, já que o estuprador é quem deve pagar pelo crime cometido. Defendemos que a criança deve ser gerada e, caso a mãe não consiga ficar com a criança, deve encaminhar para adoção. De qualquer forma, uma mulher estuprada, mesmo que não engravide, precisará de ajuda para superar esta situação que a atinge de forma tão violenta. Entendemos também que nossa luta deve ser contra a erotização da sociedade. Matar crianças geradas pelo estupro não fará diminuir o número de estupradores. Precisamos exigir segurança, educação e não clínicas para matar.

4) Anencefalia: a maternidade envolve alegrias e tristezas, vitórias e derrotas. Nossa sociedade evita o sofrimento a todo custo, e por isto somos imaturos, pois não aproveitamos a dor para crescer com ela. No caso de uma gravidez na qual esteja sendo gerada uma criança anencéfala (doença congênita, que se caracteriza pela má formação do tubo neural, durante a terceira ou quarta semana de gestação), encontramo-nos diante de uma situação bastante delicada, sem dúvida, mas, mesmo assim, devemos manter nossa posição contrária ao aborto. Os favoráveis ao aborto dizem que a mulher não precisa sofrer durante nove meses gerando uma criança que tão logo nasça venha a falecer. Este argumento revela que os abortistas parecem medir a vida pelo seu tempo de duração.

Em outras palavras, parece que, para eles, o fato de esta criança nascer e falecer em poucas horas torna a sua vida menos importante. Para nós, cristãos, a vida é um valor em si mesmo, que não se mede pela quantidade de tempo que dura ou pela forma que tem. Uma criança surda, cega, paralítica, anencéfala, ou portadora de qualquer outra necessidade, tem direito à vida, sim, independente de quanto tempo dure a sua existência. Matá-la seria voltar no tempo e realizar uma forma de seleção de espécies, permitindo viver apenas os mais fortes.

É contraditório falar em inclusão social quando propomos matar os que são diferentes (será que em breve não estaremos vendo a sociedade pedir para aprovar o aborto de crianças que forem identificadas como portadores de outras características que fogem do “normal”?). Portanto, uma criança anencéfala tem o direito de nascer, e seus pais merecem ajuda de todos nós para superar estes momentos difíceis, confiando que Deus, na sua imensa sabedoria, nos fará tirar desta situação, algum bem, que só Ele sabe qual é. (Continua na edição de amanhã).