Sempre acreditei que os princípios da moral, da ética, da compostura, do respeito e da dignidade, dentre tantas outras qualidades, fossem os parâmetros necessários para conduta do homem frente aos desafios da vida.
Acreditei que o homem de bem fosse diferenciado, que a toga que veste o magistrado o distinguisse por ser ele um homem mais honesto, ou pelos menos mais humano, mais digno, mais patriota. Digo acreditei, pois já não consigo achar a linha “tênue” que divida o bem do mal, a sinceridade da falsidade, o homem íntegro do homem criminoso.
Podemos viver num país onde a cultura está vilipendiada, onde os bons costumes estão esquecidos, onde a corrupção ataca como verme implacável em todos os níveis da sociedade, desde o síndico do condomínio até os políticos, os homens públicos. Podemos até entender o motivo da ganância, da falta de ética, do roubo escancarado, dos subornos e dos subornados, das falanges de homens de maus vestidos de homens de bem.

Podemos até entender, porém, não concordar, com a matança de animais, com a depredação de nossas matas, a poluição de nossos rios.
Podemos até achar conveniente nos omitirmos de prestar socorro às vítimas da miséria, da fome, do desespero, da incoerência de nosso sistema previdenciário, de nossas escolas que ensinam a mesma coisa da mesma forma e há tanto tempo, sem falar dos pobres sem amparo quando adoecem e precisam muito mais de socorro do que de saúde, pois a saúde, aquela velha e peremptória frase de nossa constituição: “Direito de todos e dever do estado” está sentenciada há muito tempo e sepultada há muitos anos sob os cemitérios da desordem que granjeiam num estado de direito como o nosso. Digo direito dos governantes de se auto-governarem a seu bel prazer, em detrimento de nós, simples mortais que ainda depositamos em nossas leis o futuro de nossas vidas.

Podemos tudo, mas, no fundo, não podemos nada, temos o direito do voto, da crítica, da expressão, da expansão e da democracia e essa mesma democracia nos dá “pseudo-direitos”.
Há uma separação muito bem caracterizada em nosso estado de direito, como duas formas antagônicas capazes de se autogovernarem independentes uma da outra, porque uma é aquilo que se fala e outra aquilo que se faz. Completamente estranhas à moral, à ética e aos valores, uma da outra.

Podemos entender muito dos atuais problemas que assolam nosso país. Só não podemos e não conseguimos entender é a total inércia, a completa falta de reação ao assistirmos a tudo sentados confortavelmente em nossas poltronas, presenciando o sucateamento da honestidade e da decência.
É o verme da indiferença que nos assola e consome nossa capacidade de pensar, de refletir e de agir.
Talvez o pior de todos os males de nossa sociedade, contra qual nenhuma vacina ainda foi criada, contra qual ainda não há nenhum remédio prescrito.
E esse mesmo verme que corrói as entranhas de nossas almas de cidadãos e patriotas também remonta ao nosso interior, fazendo-nos rir de nossas próprias desgraças, deixando-nos inertes e passivos.

Contra esse mesmo verme que anda com veneno atroz por sobre nossos corações, criando, recriando e procriando, há uma verdadeira pandemia a se instalar nas matizes de nossas consciências, a devorar um por um de nossos neurônios a tal ponto de não emitirmos mais nenhuma opinião, de não acharmos mais nada, de não pensarmos mais nada, e então, já não evoluímos em crítica muito menos em autocrítica.
Contra esse mesmo verme da indolência, nos sentimos subservientes e indiferentes a nós mesmos ao ponto de nos assemelharmos à poltrona da sala de TV, estáticos, frios, calados e inteiramente dependentes e entregues ao acaso de nossa história.