Num 27 de dezembro, como este sábado, há exatos 63 anos, era criado o Fundo Monetário Internacional, o famigerado FMI, contra o qual fizemos discursos e passeatas durante os duros anos do regime autoritário.
Durante o período dos governos impostos pelo regime de 1964, o Brasil valeu-se do endividamento externo para realizar obras megalômanas, umas de grande valia para o nosso desenvolvimento, como a Usina Hidrelétrica de Itaipu, outras de ruinosa aplicação de dinheiro público, como a Rodovia Transamazônica.

É verdade que, no Brasil, diferentemente de outros países latino-americanos, nossos presidentes militares aplicaram melhor os recursos do que seus vizinhos. Confiava-se que o país continuaria crescendo perto de dois dígitos, o que tornaria a dívida facilmente resgatável. Veio a crise do petróleo; após ela, outras crises internacionais, e a dívida virou uma bola de neve, o que nos levou, inclusive, a declarar moratória.

Agredido, acusado de vilão da pobreza do terceiro mundo, o FMI acabou sendo responsável pela adoção da responsabilidade fiscal, que se tornou lei no governo Fernando Henrique Cardoso.
Implantada, a duras penas, quase a fórceps, a Lei de Responsabilidade Fiscal fez do Brasil uma das economias mais sólidas e menos suscetíveis, até mesmo do que países desenvolvidos, aos abalos da atual crise financeira internacional.

Tanto a primeira quanto a segunda guerra mundial tiveram origem e motivação econômicas, fruto de graves desequilíbrios econômicos, profundos desníveis sociais e insustentável assimetria de desenvolvimento entre as nações. Vem daí a inspiração para a criação de mecanismos reguladores como o Bird e o FMI, formulados nas conferências de Bretton Woods para serem os pilares da ordem econômica internacional do pós-Guerra.

Nunca, como hoje, ainda no início do que já pode ser considerada a maior crise mundial desde o crash de 1929, conseguimos enxergar com tanta clareza a necessidade de instituições capazes de zelar pela estabilidade do sistema monetário internacional e evitar que desequilíbrios nos balanços de pagamentos e nos sistemas cambiais dos países membros possam prejudicar a expansão do comércio e dos fluxos de capitais internacionais.

No entanto, é consenso que o arcabouço institucional internacional, que, bem ou mal, funcionou por 63 anos, já não dá mais conta da complexidade das finanças, especialmente a virtual, e, menos ainda, contempla a nova multiplicidade de atores relevantes no concerto das nações.
Brasil e Índia, por mais absurdo que seja, ainda não fazem parte do corpo permanente do FMI, que tem como membros os Estados Unidos (o único com poder de veto), Japão, Alemanha, França, Reino Unido, China, Rússia e Arábia Saudita.

Mas, tão certo quanto ao dia sucede a noite, esse quadro de exclusão vai mudar. Na verdade, já começou a mudar, como pôde ser visto na recente reunião do G20 para a discussão de saídas para a crise, quando fomos chamados a dar a nossa contribuição e, melhor, fomos ouvidos como pares, iguais, parceiros de igual nível.
Para isso, infelizmente, foi necessária uma crise de proporções planetárias, nascida nos e cultivada pelos países centrais, sempre tidos e havidos como padrões de eficiência.