Eu sou a favor. Você é contra. E assim vai se construindo o debate que tem como pano de fundo a substituição dos atuais programas sobre cotas raciais, por um programa unificado que vem sendo discutido no congresso nacional.
O referido programa prevê 50% de cotas em todas as universidades públicas do país, mas sem divisão por segmentos. Esta discussão é praticamente desconhecida do grande público, por mim inclusive, mas vamos escurecer um pouco a questão.
É fundamental que haja algum grau de paridade entre a formação e a inserção dos negros na sociedade. Para mim, é inconcebível que nós fiquemos esperando passivamente as soluções chegarem. Já esperamos muito. Estamos esperando desde 1888, e as soluções não chegaram.

Os que são contra as cotas raciais dizem que devemos continuar esperando pela melhoria no ensino de base para que assim possamos nos qualificar para a entrada no ensino superior. Mas esperar até quando?
Estão sendo pensadas e praticadas formas concretas de reparar uma política social que anteriormente se pautou, sim, pelo recorte racial. Nessa discussão, existem aqueles que dizem que o conceito de raça foi cientificamente superado e que a luta deve ser por uma sociedade pós-racial.

Não sou defensor da política racial americana, do apartheid ou mesmo do antagonismo entre brancos e negros, não busco revanchismo, preconceito, ou o que possa ter ligação com essa ideia, mas o fato é que, sobretudo, não quero a manutenção do preconceito atual, e se nada de concreto e imediato for feito para possibilitar que o negro ascenda socialmente, continuaremos sempre nos vangloriando de nosso país mestiço, da mistura e da convivência pacífica entre cidadãos de todas as cores.
Não vamos negar o racismo que sempre existiu e que existe em nosso país. Quem tem a tonalidade de pele preta sabe com absoluta certeza que há preconceito racial, sim, e não é preciso grande esforço para provar isso.

Se com as cotas o preconceito “aparecer”, garanto aos senhores que para nós não será muito diferente do que já é, e acho que vale a pena comprar o pacote, já que dessa vez viria algo de bom: os negros ocupando parte das cadeiras nas salas de aula das universidades federais.
No geral, sou contra as cotas, e a maioria dos negros que conheço também é, mas enquanto elas forem necessárias como reparo de injustiças históricas e, enquanto não me apresentarem outro mecanismo real e factível de inserção dos negros na sociedade, sou a favor.