Pense rápido: quantas vezes na sua vida você chamou alguém de louco ou ouviu alguém falar: você é louco(a)!
Caso nunca tenha ouvido antes, então agora estará ouvindo, você deve ser louco(a) de tão certo(a). Então, virou chavão falar em loucura quando se fala em atitudes inesperadas, situações engraçadas, pessoas diferentes…

Apesar disso, existe ainda na sociedade um mito enorme envolvendo o conceito de normal ou doentio no que tange os problemas psíquicos. Dizer que tem problema cardíaco ou gastrite, não é problema, no entanto, falar que tem esquizofrenia, certamente pode ser impeditivo para que alguém namore com você ou lhe dê um emprego, assim como pode ser um grande agravante para que lhe responsabilizem por um crime.

A sociedade trata das mentes doentias com preconceito, encara a doença psíquica com “cara feia”. No entanto, quando alguém se mostra agradável, nos faz rir, nos diverte ou somente age diferente a chamamos de louco(a), mas sem o caráter preconceituoso. O que é ser louco, então? Quem é louco nesta sociedade? Será que, quem hoje é normal, ontem não era louco ou amanhã não o será?
Esse assunto sobre ser normal ou louco aparentemente não tem relação com direito, parece ser papo de gente louca e que mais louco ainda deve ser aquele que deixou uma psicóloga escrever para a coluna.

Mas há relação, sim. Como alguém poderia fazer justiça, defender, acusar ou julgar alguém, sem refletir sobre os seres humanos? Refletir sobre os comportamentos e formas de agir da nossa sociedade? Como se pretende trabalhar com justiça sem pensar no que pode ou não ser normal?

Sou professora da disciplina de psicologia forense no curso de direito. E tenho a difícil tarefa de fazer com que os alunos compreendam os conteúdos que constam na ementa, pois eles precisam parar e refletir sobre o homem, suas diversas facetas, sua forma de agir na sociedade; tenho a difícil responsabilidade de humanizar a justiça, tornar, ao menos aqueles que forem meus alunos, advogados, juízes ou promotores de justiça, realmente humanos, e assim, consequentemente, fazer com que pensem o direito, não enquanto um emaranhado de leis a interpretar e vantagens a serem tiradas, mas como um instrumento de busca da Justiça.

Voltemos, então, ao conceito de normalidade. O que é justo ou injusto em relação à loucura?
Numa sociedade em que se considera normal comprar DVD ou CD falsificado (“pirata”), sonegar impostos, enganar o outro e que se julga aquele que faz o mesmo em maiores proporções, o que é ser normal? Numa sociedade de pessoas que não olham para si mesmas e levantam o nariz com muita facilidade para julgar o outro… O que é ser normal? Um questionamento passa pelo pensamento de muitas pessoas: Será que mais inteligentes não são os que fogem da realidade e se refugiam na doença?

Neste mundo de normais que se dizem loucos e loucos que se dizem normais, já não mais podemos falar em loucura. Diz-se que foge a normalidade aquele que prejudica a si mesmo ou aos outros, mas quem nunca prejudicou o outro ou a si mesmo?
Sempre gostei do termo “sofredor psíquico” para designar os doentes mentais; hoje prefiro “doentes” mesmo, porque não considero certo tudo o que esta acontecendo na nossa sociedade e essa gente louca, certamente, não sofre com o mal que causa ao outro.

A loucura então é questão de ponto de vista. Classificações não faltam, e certamente todos os operadores jurídicos já ouviram falar em personalidade psicopata, dissocial, narcisica… No entanto, e infelizmente, a maioria das pessoas que trabalham com direito, dificilmente parou para pensar no que é ser normal. Ser louco, então, é ser diferente. E ser justo é muito mais do que levar leis a sério, mas levar o homem e suas relações muito a sério. Assim, deixo um questionamento para reflexão: existem pessoas normais?