Como é que a gente explica o fato de vivermos em uma sociedade que vive praticando violências de todo tipo e que se espanta com o episódio da menina Isabela? A resposta mais provável entre todas as que procurei é exatamente por termos plena consciência de que somos capazes das mesmas atrocidades praticadas contra esta criança.

Como praticante de budismo que freqüentei por cinco anos e que abandonei exatamente em razão das violências psíquicas (hoje em maior número e muito mais mutilantes que as de ordem física, para alegria dos laboratórios que vendem algum tipo de antidepressivo) praticadas por aqueles que se autodenominam promotores da paz, aprendi que todos somos assassinos em potencial.

No caso do budismo, dividem-se os “estados de vida” em dez, indo do inferior (Inferno) ao superior (Buda), nada mais do que uma leitura diversa das noções de céu e inferno da tradição cristã e que as religiões em geral insistem em manter uma mística sobre o que a psicanálise já deixou mais do que claro se tratar de estados emocionais bem terrenos, humanos e dignos de atenção constante.

Por que nos indignamos com um casal de bacharéis em direito, bem criados e supostamente bem encaminhados na vida, preparando-se para um concurso da Polícia Federal, ao serem indiciados como principais (e únicos) suspeitos pela atrocidade cometida? Exatamente porque nos encontramos nas mesmas circunstâncias na qual eles encontram-se, perdidos em um mundo que de tantas e tão rápidas transformações tem nos deixado a todos, especialmente à geração nascida da década de 1960 em diante, sem parâmetros ou com excesso de parâmetros.

Prova disto é a própria proliferação de religiões idólatras, onde o fiel “terceiriza” o destino da sua vida, delegando suas decisões ao pastor, ao mestre, ao pároco, ao venerável irmão, ao médium, enfim, todos nomes diversos para a mesma doença, a incapacidade de se responsabilizar pela própria vida. E como ser responsável em um mundo que constrói e destrói valores a cada segundo? Com 41 anos, chego a pensar nisto como impossível ou, no mínimo, raro!

Quem tiver oportunidade de ler os pensamentos do psicanalista francês Charles Melman, de 76 anos, e reproduzidos nas páginas 92 e 93 da edição de 23-04-2008 da revista Veja, intitulado “A Família está acabando”, compreenderá o que estou querendo dizer: “Estamos matando nossas Isabellas todos os dias, por mais dissimulados e astutos que sejamos em nossa representação diária!”.

Eu moro em Santa Catarina há 15 anos e já ouvi de amigos tubaronenses expressões como “rebelde”, “idealista” e outras que prefiro não usar em nome da saúde auditiva e mental do leitor. Concordo com todas elas e me reporto a uma frase do saudoso Darcy Ribeiro: “Perdi a maioria das minhas batalhas, mas jamais me alinhei aos vencedores pelo simples fato de serem vencedores!”. É isto!