O médico tubaronense dr. Arary Cardozo Bitencourt escreveu o livro O Menino de Oficinas, no qual relata as suas lembranças de garoto na nossa cidade e, também, traz informações interessantíssimas sobre a história da formação e da ocupação do sul do Brasil, detendo-se especialmente nos eventos que envolveram as cidades de Laguna e Tubarão.

Na verdade, o livro é um trabalho pedagógico que pode servir para os nossos professores e alunos de história, desde o ensino básico ao curso superior. Entretanto, pela síntese que caracteriza a obra, agrada ao cidadão comum, que tem orgulho de seu povo e dos acontecimentos nos quais esteve envolvido para consolidar a nossa sociedade.

Algumas particularidades chamam a atenção. Sabemos, por exemplo, que houve heroísmo em Laguna, mas sempre algo relacionado com Anita Garibaldi. O livro mostra que os lagunenses, desde a segunda metade do século 18, foram os responsáveis pela ocupação e domínio do sul do Brasil defendendo São Pedro do Rio Grande (estado gaúcho) e, impressionante, saíam daqui, barra afora, para lutar a favor de seus co-irmãos na colônia de Sacramento, junto ao Rio da Prata, no Uruguai.

Uma questão que está sempre a merecer reparações é a falta de interesse de nossas autoridades em render homenagens aos nossos vultos históricos. O Dr. Arary reclama que não temos a mínima consideração com o Visconde de Barbacena (foto), visionário da indústria carbonífera, e sua protetora Dona Teresa Cristina. Nem monumentos e nem o nome de uma rua de projeção nas cidades de Tubarão e Criciúma.

No texto que fala da imigração europeia, especialmente italiana, é comovente a descrição feita sobre a chegada daquela gente em Morrinhos (porto fluvial de então) e sua caminhada para Azambuja. Mulheres e crianças em carros de bois, se abrigando nas taperas que serviam de apoio aos tropeiros.

São excelentes os seus registros sobre a estratificação da sociedade tubaronense no que diz respeito aos costumes dos cidadãos do centro da cidade e da população que morava além da estação ferroviária (hoje a rodoviária velha).

Nas entrelinhas, uma informação precisa sobre a poluição do nosso rio. As casas possuíam as suas instalações sanitárias no fundo do quintal, as curiosas “patentes” de madeira com fossa particular. Com a chegada do vaso sanitário e das tubulações de plástico, o esgoto residencial passou a ser lançado na rede pluvial – observação nossa.
E tem muito mais no extraordinário livro do Dr. Arary.