Os dados do 10º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados neste mês pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, traduzem a triste realidade em que o país se afunda quando falamos de violência. A cada nove minutos uma pessoa foi morta de forma violenta em 2015, o que inclui vítimas de homicídios dolosos, de latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais. Um total de 54.492.

Poderíamos comemorar a redução de 2% em relação a 2014, quando este número foi de 59.703. Se alegrar com as 1.238 vidas salvas no ano passado seria uma visão míope dos fatos, já que nos últimos quatro anos o Brasil matou 23.468 a mais que a Síria, que está em Guerra Civil durante todo este mesmo período. É um abismo entre o discurso de país em desenvolvimento e a prática. 

O pior é que mais uma vez vemos a falta de políticas públicas de longo prazo, como investimento em estrutura para as polícias, leis mais duras e efetivas, reestruturação do sistema carcerário e a principal delas: investimento em educação. O mesmo estudo aponta um investimento 76,3 bilhões em Segurança Pública, com um aumento de 62% de 2002 até 2015. Se o dinheiro foi investido, o problema está na forma em que isso se decorreu. 

Não adianta ter a verba e não saber usá-la da forma adequada. Sempre é falado em aumento de efetivo, mas não em treiná-lo, em prepará-lo. Em 2015, 3.345 pessoas foram vítimas de ações das polícias, uma taxa de letalidade maior do que Honduras. A culpa é mesmo do policial, se na contramão, 393 policiais morreram, sendo 103 em serviço e 290 fora? Não, sem treinamento, sem remuneração, sem acompanhamento psicológico, entre matar ou morrer, o extinto de sobrevivência sempre falará mais alto. 

A justiça continua lenta e morosa. No ano passado, 584.361 pessoas foram encarceradas, 36% em situação provisória, ou seja, 212.178 não foram julgados. Aguardam e lotam cada vez mais as penitenciárias, que também não oferecem nenhuma possibilidade de ressocialização, salvo algumas iniciativas esporádicas. 

Também não se leva em conta outro aspecto, como 50% dos alunos frequentando o 9º ano do ensino fundamental estão em escolas localizadas em áreas de risco de violência e que 14,5% dos estudantes brasileiros já afirmaram ter perdido aula por medo da violência. Não damos educação de nível e nem segurança para frequentar as escolas. Como imaginamos acabar com a criminalidade, quando a única oportunidade de uma parcela significativa da população é a própria?