Os avanços tecnológicos têm facilitado a comunicação e o acesso à informação para o ser humano. No entanto, dentre averiguar as suas vantagens, é papel também do profissional de saúde mental compreender os aspectos negativos relacionados à maneira como as pessoas lidam com a própria tecnologia. 

Já dizia o sociólogo Domenico De Masi em uma de suas citações: “Ótima é a medida, nada em demasia”. Ou seja, agir de modo equilibrado é a medida para garantir o nosso bem-estar e qualidade de vida. Sendo assim, estar atento sobre nossas ações no dia a dia e questionar até que ponto as atitudes estão sendo positivas ou prejudiciais, é fundamental para a promoção da saúde física, psíquica, emocional e social.

A conectividade ao mundo virtual tornou-se a extensão do “próprio eu” (o que sou ou gostaria de ser).  E a maneira como pensamos, sentimos e agimos em relação a este contexto traz reflexos significativos em nosso mundo real. A ansiedade sentida à espera de uma mensagem. O desconforto gerado pela ausência de Wi-fi. A angústia envolvida por estar com o celular descarregado. A necessidade incessante em verificar as atualizações de e-mails, aplicativos e redes socias. A sensação de autoafirmação (crenças, valores, suposições sobre nós mesmos) e estima ao verificar quantas curtidas e comentários recebemos ao postar uma selfie na rede social. Esses são alguns exemplos do quanto o mundo virtual pode interferir na vida real demasiadamente. 

O problema não está relacionado ao tempo de uso especificamente, mas aos impactos na qualidade de vida e na interação social das pessoas. Quando deixamos de realizar as atividades que antes nos davam prazer para ficar a par das informações virtuais. Quando gastamos cada vez mais horas do nosso tempo deixando de lado tarefas importantes do nosso dia a dia. Quando chegamos a esquecer ou até mesmo comprometer as nossas necessidades básicas fisiológicas (alimentação, sede, sono, higiene pessoal). Quando as dificuldades de acesso e comunicação por meio de aparelhos celulares ou computadores fazem nos sentir irritabilidade, agitação, ansiedade, insegurança, angústia, estresse, sensação de vazio, taquicardia, dentre outros. Esses sinais podem ser indicativos de Nomofobia. Medo irracional em que as pessoas não conseguem se desconectar das tecnologias de comunicação e informação e isso acaba gerando sofrimento psíquico e emocional. 

O que as pessoas não percebem é que a conectividade exige certa reciprocidade. Então, preocupa-se quando as pessoas começam a viver o mundo virtual e com o tempo vão se desinteressando por atividades sociais, afetivas, de lazer, tendo uma relação exclusiva com seu objeto de dependência. Nem sempre as pessoas envolvidas percebem o quanto estão sendo prejudicadas e entraram em um sistema irracional de recompensa. Geralmente são terceiros que observam e chamam a atenção. Comorbidades podem estar associadas como: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), ansiedade social e depressão.

Informar sobre Nomofobia possibilita que as pessoas façam uma autoanálise e orientem a quem achar necessário para que busque atendimento psicológico. Nem sempre sozinhas conseguem lidar diante desta situação. Nomofobia é tratável com psicoterapia e, dependendo da dimensão, poderá também necessitar de acompanhamento psiquiátrico.