Não basta a imagem para que exista o conhecimento. Ela pode até criar a ilusão do conhecimento. Ver e pensar são experiências diferentes. Um cego pode ser um grande pensador, sem ver imagens, assim como um consumidor de até 10 horas diárias de imagem televisiva pode ser alguém com a capacidade de pensar atrofiada. Ver a queda do Muro de Berlim não significa compreender a crise da utopia socialista, assim como ver a imagem de um pobre não significa compreender os motivos que geram desemprego ou baixos salários, ou as políticas que poderiam levar à diminuição das desigualdades sociais. Homo sapiens é aquele que vê através de interpretações. É aquele que observa sistematicamente a vida, através de conceitos, paradigmas, interpretações, relacionando os fatos, identificando significados.
Por isso, em relação à televisão brasileira, um título que bem poderia definir a nossa atual situação tele-“educativa” é o seguinte: “A hegemonia das maiorias superficiais”.

A baboseira encontra-se, como dizem os italianos, dappertutto, mas é sobretudo nas televisões comerciais que ela reina. Claro que poderia surgir uma dúvida pertinente, do tipo “quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha”: a televisão baboseira é expressão de um povo que ama cada vez mais as baboseiras e que é cada vez mais babosento, ou o povo é expressão de uma televisão que reduz, ao invés de estimular, a malhação mental? A baboseira televisiva é opção da maioria ou condição imposta à maioria por hábeis estrategistas da heterodireção, interessados nas vantagens comerciais da “cultura da incultura”? A nossa sociedade é vítima da flacidez, da flacidez física, pois vivemos como animais confinados para o engorde. Mas é a flacidez mental a que mais nos vitima. O cérebro dos consumidores de baboseira televisiva se exercita cada vez menos.

Parece que quanto mais permanecemos diante de certos programas aparentemente lúdicos, mas vazios de conteúdo, mais perdemos o que aprendemos com fadiga mental através de fontes realmente educativas.
O brasileiro é um povo de compromissos sérios, mas que, infelizmente, assumiu, também, alguns compromissos inúteis: compromisso diário com várias novelas ou com as tantas latas de cerveja que ele tem de tomar todo fim de semana, para provar que é macho, pois, no Brasil da baboseira, homem que é homem tem de enfileirar muitas latas de cerveja vazias, como se fossem troféus de caça, onde o caçado, coitado, é ele mesmo, vítima da guerra publicitária das cervejarias.

A competição publicitária impõe a ditadura da bobagem, forçando a televisão a ser, pela força avassaladora do ibope (onde o que vale é a audiência, a quantidade e não a qualidade), um instrumento cada vez mais superficial e, por sua vez, este tipo de TV pressiona as minorias descontentes (e justamente descontentes) a aderirem à mentalidade do telespectador esponja, pressionando para a criação de uma unanimidade da baboseira.
A ignorância, antes combatida, passa a ser sinônimo de virtude: líderes de audiência proclamam a ignorância como modelo “cultural” de vida. O “não saber”, seguido do mero “aparecer”, passa a ser proclamado como alternativo ao saber. O cartesiano: “Penso, logo existo”, é substituído pelo ilusório “apareço na televisão, logo existo”. Tudo o que não aparece, dentro desta lógica, não existe.

Se uma televisão não cita, no seu noticiário, certo fato internacional – porque não quer gastar com enviados especiais ou porque esta dada notícia, mesmo sendo importante, não dá ibope – isto não significa que tal fato não ocorreu. Para os telespectadores esponja, que absorvem tudo, sem analisar, só existe aquilo que aparece na televisão. Só quem vê através de conceitos compreende o que vê. E a TV, em geral, não oferece conceitos, mas sensações. Temos hoje um elenco excelente de meios de comunicação, da televisão à internet, mas para comunicar o quê? Muitas vezes para difundir o vazio, a exaltação da ignorância, a apologia da burrice.