Para se ter namoro é preciso provar com presente? Então por que dia do namorado? Drummond de Andrade diz, em poema, que se não tem namorado é porque tirou férias remuneradas de si mesmo. O poeta mineiro do Brasil inteiro tem razão em dizer que namoro não é a mais difícil das conquistas. “Precisa é de pele, de saliva, de lágrimas, nuvem, quindim, brisa ou filosofia”. E não de presente. A mulher que vive com regalo já está em branca nuvem e dispensa um dia especial só para receber uma lembrança.

O que me entorpece é o jornalista que só enxerga o presente no dia do namorado, se bem que ele não foge à realidade, pois essa data foi criada justamente para o melhor presente ser do comerciante. Por isso, é fácil predizer as manchetes de jornais nessa data: comércio espera vender mais. Ou, indagando, o que você vai dar ao seu namorado?

E ninguém se importa com o significado da relação amorosa. E quando se busca explicação, vem a história de um casal de idosos que convivem há mais de meio século. Poxa, será que o namoro ficou tão morno assim, a ponto de o jornalista só enxergar a mesmice?

O namoro, contudo, não é a única razão dessa anorexia. Até por que há outros dias especiais também para estimular o consumo. No da criança, o jornalista quer saber qual o presente que você vai dar aos seus filhos e no natal, idem, assim como no dos pais, da mãe, da avó e, logo logo, haverá o dia do cachorro, já que os produtos caninos já latem forte no PIB brasileiro.

Ironia ou não, há comerciantes renunciando à imutabilidade para dar calor à publicidade de seus negócios. Vejo na televisão anúncios com mensagens que penetram no coração das pessoas, despertando-as para a suavidade do romance. O mundo parece mesmo alucinado, mergulhado em tamanha incoerência. Imagine, o homem de negócio abre seu coração, enquanto o jornalista estimula o consumo. Deplorável! Se o mundo já acusa esse paradoxo, podemos então esperar que a seriedade e a ética voltem a habitar a cabeça do político brasileiro

Quem tem namorado não precisa tirar férias remuneradas de si mesmo, como sugere Drummond. Basta contrapor-se à simbiose do tempo e dinheiro e compreender que a única forma de fugir à mitologia do capitalismo é descobrir que o coração não precisa de presente. Só vou torcer para que a minha namorada também pense assim.