O sapo subiu na estrutura que tinha sido montada para a autoexecução. Parecia certo e definitivo o destino do anfíbio. O carrasco já estava preparado para proferir o discurso mórbido. Alguns bichos até ensaiaram um coro de “pula! pula! pula!”. Outros ficaram em silêncio, incrédulos. Uma águia que voava próximo à lagoa acompanhava toda a situação. Além de possuir uma visão poderosa para a caça, a ave ainda conseguia enxergar coisas que os outros bichos não viam.
– Vocês estão cegos? O sapo ‘mijou’ nos olhos de vocês que não conseguem ver com clareza? – indagou a águia. (Conta a lenda que, se um sapo urinar nos olhos de alguém, provoca cegueira momentânea ou até mesmo definitiva).

A águia sabia que o sapo estava blefando e, na verdade, não iria se enforcar. O sapo esperava persuadir os animais com aquela ação, fazendo com que os habitantes da lagoa, comovidos, viessem a apoiá-lo, impedindo ele de cometer tamanha loucura. Era mais uma artimanha para ganhar tempo com o intuito de tentar reestruturar o lago, que estava à beira de um “tsunami”. Afinal, ninguém falava mais a mesma língua, o que antes era ‘fechadinho’, agora, parecia mais a ‘Torre de Babel’, devido ao conflito de opiniões a respeito do líder anfíbio. Se aquela lagoa fosse a arca de Noé, estaria à deriva, pois os animais já teriam pulado à procura de salvação com suas próprias forças, a nado. No entanto, os animais estavam comovidos e quase dando uma nova chance ao sapo, devido seu grande poder de persuasão com argumentos sentimentalistas.
– Não estamos cegos! Vemos com muita clareza e você também vê! O sapo vai se sacrificar em nome de um ideal, provando sua boa intenção, já que não confiamos mais nele. Tiradentes foi enforcado por um ideal! O sapo vai se enforcar por um ideal, o que é mais nobre ainda! – Disse o pato, que até então não tinha se manifestado.

A águia continuou insistindo em tentar abrir os olhos dos animais. Então, perguntou:
– Senhores, vocês lembram como Tiradentes foi enforcado?
– Óbvio que sim. O carrasco colocou uma corda em seu pescoço, depois seu próprio peso fez com que ele sufocasse até a morte! – exclamou a cobra d’água.
– Exatamente! – respondeu a águia.
Então, ela fez uma pergunta que deu fim definitivo naquela história:
– Sapo tem pescoço?
A bicharada ficou sem resposta, estagnada. O sapo aproveitou e fugiu para outro brejo, antes que os animais voltassem a si, e nunca mais voltou. Depois desta decepção, envergonhados, os animais que habitavam aquela lagoa, migraram para viver em terra firme. Ao longo dos anos, foram sofrendo metamorfose e hoje é o que conhecemos como burros, antas, homens, entre outros animais de pouca inteligência e fácil manipulação.