Nos últimos dois meses, a sociedade catarinense, em especial os municípios dos sul do estado, estão tomando conhecimento do Projeto Anitapólis, que em suma deseja permitir a instalação de uma mina a céu aberto e uma indústria de superfosfato simples, no município de Anitápolis.

Graças a jornalistas comprometidos, aos editores que apoiaram e acreditaram nas informações encaminhadas, as poucas personalidades políticas, que tentavam promover a discussão, em especial nos municípios de Tubarão e Santa Rosa de Lima, o que antes era o trabalho de pesquisa de poucas pessoas, e que redundou na proposição de vários questionamentos nos diversos órgãos públicos estaduais e federais, e na proposição de uma ação civil, permitiu que o assunto ganhasse notoriedade, tornou-se público, e culminou com a realização de uma audiência pública na assembleia legislativa na última semana.

Pouco a pouco, o trabalho solitário da ONG Montanha Viva vem agregando atores importantes, de diversas matizes, demonstrando que a preocupação não apenas é ambiental e pertence a todos, e não a determinado segmento.
Quem esteve presente pôde perceber que, entre doutores, professores, políticos, entidades, a imprensa havia importante participação e mobilização popular.
Muitos vieram de longe, de carona, com amigos, de carro ou de ônibus, algumas prefeituras disponibilizaram o transporte. Essas pessoas, depois de longo caminho, lá permaneceram, escutaram, ficaram até as 20 horas, talvez nem tenham se alimentado. Mas lá permaneceram, foram ouvidas, e também ouviram. Tiraram impressões, formaram um juízo de valor, demonstraram contrariedade com relação ao Projeto Anitápolis.

E, acima de tudo, deram uma demonstração de cidadania, de mobilização, de participação popular, e estão de parabéns. E que assim permaneçam, vigilantes. Outras entidades empresariais, como a CDL de Braço do Norte, que representa interesses comerciais, contribuiu com forte posicionamento, entregando-nos um abaixoassinado com mais de 550 assinaturas.
Ficou claro que a maioria dos presentes desconhecia o Projeto Anitápolis, ou então tomou conhecimento há muito pouco tempo, isso inclui os deputados, o Comitê de Bacias, o Ministério Público, professores universitários, enfim, o direito à informação que sempre exigimos em nossos questionamentos também foi notado pelos participantes da mesa.

Se estes poucos sabiam, o que dizer da sociedade. Estranho é que o projeto vem sendo discutido há mais de quatro anos, mas o desconhecimento generalizado só vem a reforçar o silêncio e a falta de informação a que todos estavam sendo submetidos.
Algumas ausências foram sentidas, principalmente as das empresas que desejam explorar o local. E por quê? Receio de explicar a todos o inexplicável? De defender a ideia de que o meio ambiente será prejudicado, que pessoas poderão sofrer danos ambientais, e que o empreendimento não vai garantir tudo que está sendo prometido? Que pessoas poderão perder seus empregos, que a saúde, a educação, a segurança pública poderão ser atingidas e que somente as empresas irão se beneficiar?

Infelizmente, essas questões ficaram sem respostas, pois não houve o contraditório.
Mas a temática ganhou importância, já que estão previstas mais duas audiências públicas, onde esperamos que as empresas se façam representar para sim tentar convencer a população da viabilidade não apenas econômica, mas principalmente ambiental, e social do projeto, trazendo, não meias verdades, e que demonstre que o empreendimento não apresente riscos à população. Ficando isso claro, não há porque se negar o empreendimento, não conseguindo demonstrar isso, não se pode falar então na aprovação do mesmo, independente dos interesses a serem contrariados.
Somos sabedores o quanto o meio ambiente é importante em nossas vidas, até porque somos parte integrante dessa complexa cadeia. Qualquer alteração reflete, queiramos ou não, em nossas vidas, estejamos ou não próximos ao evento. E devemos pensar nas gerações futuras, o que desejamos deixar, até mesmo em respeito aos jovens que se fizeram presentes na audiência.

Certamente, a repercussão do Projeto Anitápolis irá ganhar projeção e peso nas eleições de 2010, pois a agenda ambiental é uma bandeira política e eleitoral importante. Ouso a dizer que se tornará o fiel da balança.
Os pretensos candidatos ao governo do estado, ao senado federal, às câmaras, certamente perceberão a força dessa bandeira a ser defendida ou não. A mobilização dos 21 municípios, dos seus eleitores, não será desprezada e não pode, pelos postulantes a cargos políticos, pois, em jogo além de vidas, estão debate outras questões.

A sociedade deve antecipar-se a esse debate, cobrando desde já um posicionamento claro dos seus candidatos. Melhor que se posicionem agora do que demorem 33 anos para fazê-los. O meio ambiente não poderá esperar, e nem nós desejaremos pagar mais essa conta quando a mina for desativada.
Para evitar os danos, permitir e ampliar a discussão, suspender ao processo de licenciamento, conclamamos a todos os interessados a apoiar a ação civil pública que está tramitando na Justiça Federal, e cobrar dos seus representantes a sua posição.
O processo eleitoral sairá fortalecido e nós, os eleitores, saberemos a quem confiar o nosso voto em 2010.