Questão deveras importante, mas nem sempre discutida com a devida profundidade, é a (in)correção do modo como os pais atualmente estão educando e criando os seus filhos. Entretanto, esta discussão ganhou força com a recente publicação de um livro escrito por uma professora de direito da Universidade de Yale, de origem asiática. No espaço de apenas uma semana, já encontrei um editorial de um importante jornal do sul do país, um artigo comentado por um educador em outro jornal de igual envergadura e, para completar, um belíssimo artigo escrito pelo reconhecido articulista Cláudio de Moura Castro na revista Veja.

Em síntese, a obra, denominada Battle Hymm of a Tiger Mother (Hino de Batalha da Mãe Tigre) é uma narrativa da experiência da própria autora na criação dos seus filhos e já é considerada um best-seller, tamanha é a tiragem da obra. Sem maiores tergiversações, a autora/mãe relata o método disciplinador com que criou e vem criando os seus filhos. Ao contrário do que podemos denominar de modo de educação ocidental, método adotado aqui e pelo que se sabe, nos EUA, a autora descreve a rigidez e o controle imposto aos filhos.

Dentre os relatos, encontram-se proibições que vão desde a ida a festas, uso recreativo de computador, até o encontro com as amigas. Ademais, uma exigência de aplicação total aos estudos, onde a única nota aceitável é o 10 e, ainda, o estudo de três horas diárias de instrumentos musicais. Violão, bateria ou guitarra? Nem pensar! Piano ou violino!

É preciso dizer que a obra encontrou muita resistência e sofreu severas críticas. Por óbvio! Basta olhar para a rotina de liberdade total de muitas das crianças e jovens que vemos todos os dias. Uma das passagens mais criticadas se deu com a filha caçula, à época com apenas 7 anos, que não conseguia tocar uma peça ao piano, mesmo depois de ter ensaiado por uma semana. Relatada a sua intenção de desistir, a mãe chamou-a de preguiçosa e lhe ameaçou de deixá-la sem almoço, sem festa de aniversário e sem direito de brincar com as suas bonecas. Ao final, a filha aprendeu a peça e hoje, já com 15 anos, defendeu a atitude da mãe naquela ocasião, pois diz ter sido importante para a sua formação, ensinando-lhe valores como a persistência e a dedicação.

Tal comportamento maternal, para o modo ocidental de educação dos filhos, é quase considerado uma tortura. Todavia, nos valores orientais, o insucesso dos filhos é uma desonra para os pais. Não tenho dúvidas que o relato da autora não pode servir de regra para a criação dos filhos. Trata-se de um caso específico que, salvo prova em contrário, podemos dizer, até agora, “deu certo”. Nada substitui o bom senso. Uma certa liberdade na criação gera, acredito, uma criatividade e uma capacidade de interação extremamente importante para a formação do caráter de um indivíduo. Por outro lado, o mais importante, não é sabermos qual das duas formas de educação (oriental ou ocidental) é a mais correta, até porque não acredito em estereótipos, mas sim, a discussão em si.

Na condição de educador, só o que posso dizer é que vejo com bons olhos uma certa imposição de limites as nossas crianças e jovens, pois o futuro exigirá deles uma responsabilidade e uma capacidade de doação muito grande e que dificilmente será obtida apenas com muito carinho e amor. O verdadeiro educador é aquele que sabe castigar quando necessário. Por fim, nas palavras do já citado articulista da Revista Veja: “Ter peninha da pobre criança que não tem vontade de estudar é trocar o conforto emocional de hoje pelo futuro do filho”.