Às portas de uma nova eleição, sempre é interessante falar de comícios memoráveis realizados na cidade de Tubarão, notadamente daqueles que envolveram grandes nomes da política nacional e, neste caso, daquele que teve como estrela maior Jânio Quadros, o carismático e controvertido candidato do Mato Grosso (hoje da parte que ficou sendo o Mato Grosso do Sul) à presidência da república em 1960 pela UDN – União Democrática Nacional, numa coligação com PTN, PR, PL e PDC, este, seu partido de origem.

Jânio, eleito em 3 de outubro para o quinquênio 1961/1965, com expressiva votação – a maior de seu tempo à presidência -, ainda na condição candidato viajou pelo Brasil todo e, numa dessas peregrinações, acabou por aparecer em Tubarão, já com a fama de ser um fenômeno nacional de urnas e de não economizar palavras para passar adiante suas polêmicas ideias. Logo, despertando uma imensa curiosidade não só em seus correligionários como também nos próprios adversários, fez a cidade entrar em ebulição nos dias que antecederam à sua visita e, mais ainda, na hora em que mostrou-se ao público da Cidade Azul.

O concorrido palanque udenista foi montado na Praça Centenário, também conhecida como Praça do Chafariz, bem no centro da cidade, na estratégica trifurcação das ruas Lauro Müller, Coronel Collaço e Marechal Deodoro, onde se aglomerou um expressivo número de eleitores, estes que, espremendo-se como podiam, acotovelavam-se para ver mais de perto o maior nome da política nacional de seu tempo.

Mais parecendo um brasileiro pouco afeito ao perfil de um político (pelo menos na pose); Jânio, magérrimo, alto, com seu irrequieto bigode a mexer de um lado para o outro e cabelo esgadelhado, causou estardalhaço quando, sendo o último a falar, tomou a palavra para pedir voto aos tubaronenses. Antes de começar, teve como recepção mais de dez minutos de aplausos e vivas do grande público. Bom de conversa, logo cativou a magnífica plateia e mostrou porque se elegeu vereador, prefeito, deputado e presidente, sem jamais ter perdido uma eleição.

Não faltaram no palanque, que estava lotado, sequências de bandeirolas e cartazes, colados com grude, uma solução de cola caseira feita à base de farinha de trigo, água e vinagre; faixas com frases de “Viva Jânio!” e até vassouras; isto mesmo, muita vassoura, inclusive, algumas nas mãos da numerosa plateia, um simples instrumento doméstico que era o símbolo maior da campanha de Jânio, cuja proposta principal era varrer de vez a corrupção do Brasil.

Seu opositor mais direto à presidência era o marechal Henrique Teixeira Lott, candidato do PSD – Partido Social Democrático e PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, que trazia como símbolo de campanha uma espada. O símbolo de Lott surgiu por conta de ter recebido uma espada de verdade – toda dourada – de Juscelino Kubitscheck, quando, mesmo sendo um marechal, sufocou um movimento militar que tentara impedir sua posse na presidência do Brasil em 1955.
Em uma prova de amor declarado, no trabalho ou a passeio, udenista que era udenista fanático andava o tempo todo com um broche de uma vassoura preso na lapela e, do outro lado, o convicto pessedista, com a lustrada espada dourada.

O lugar escolhido – a Praça Centenário – era tradicionalmente um reduto udenista; logo, muito bem frequentado quando ocorriam encontros políticos de maior repercussão ou, até mesmo, para um simples bate-papo. Em contraponto, sabe-se, o Largo da Estação Ferroviária (antiga rodoviária, pelo lado da rua Marechal Deodoro), onde havia, inclusive, um concorrido ponto de “Carros de Mola” – o táxi de agora) era o lugar de referência dos fiéis aliados do PSD e PTB .
Ali também foram realizadas memoráveis falas e arrebanhamentos de grande público. Naquela época, quase sempre os comícios do PSD eram maiores que os da UDN, até pelo próprio espaçoso escolhido como ponto de concentração.

De volta à Praça Centenário, numa breve pitada de humor, vale a lembrança do personagem tubaronense da mesma época e do mesmo lugar, o assoviador “Chico Batata”, conhecido vendedor de jornais que, num momento de repouso do seu ofício, vendo um empregado varrendo a calçada da prefeitura, posterizou sua frase: “O que precisa mesmo é varrer por dentro, e não por fora!”. E, como se fosse pouco, era de seu feitio fazer inflamados discursos a céu aberto, sempre comentando assuntos relacionados com a administração municipal. Mudava o prefeito, mas Chico continuava o mesmo.

Detalhe: a realização de eleições em 3 de outubro é uma homenagem à data do início da Revolução de 1930, quando, num movimento liderado por Getúlio Vargas, encerrou-se o ciclo da República Velha. Tivemos nesta data de 3 de outubro, até agora, cinco eleições para presidente, sete para governador e nove para prefeito. Em segundo lugar, fica o 15 de novembro.