Víctor Daltoé dos anjos
Geógrafo/UFSC
victordaltoe@gmail.com

O G-20, evento que envolve as 20 maiores economias do mundo, recentemente realizado em Buenos Aires, foi marcado por um comportamento mais amistoso entre Estados Unidos e China. Donald Trump (EUA) e Xi Jinping (China) resolveram acertar uma trégua de 90 dias na aplicação de novas sanções entre si em meio à guerra comercial vigente. Entretanto, a recente prisão de uma alta executiva chinesa no Canadá parece ameaçar o clima de amizade afirmado na Argentina em meio a vinhos da terra e filés macios do pampa.

Desde sua posse em janeiro de 2017, Donald Trump acionou as alavancas enferrujadas do protecionismo, motivando diversas nações a aplicarem políticas de aumento das barreiras alfandegárias, estendendo o espectro de uma guerra comercial. Jinping respondeu as provocações de Trump de forma enérgica, mesmo que todos saibam que o tão alardeado crescimento chinês das décadas anteriores esteja minguando.

Apenas alguns líderes mundiais, como a alemã Angela Merkel e o francês Emmanuel Macron, tentaram nadar contra essa maré. Todavia, recepcionados pelo anfitrião da Argentina em crise, Maurício Macri, na recente edição do G-20, os principais líderes mundiais impressionaram o mundo com um clima de distensão em meio aos dois anos de troca de farpas incessante.

Porém, não há bem que dure. Uma executiva da gigante de tecnologia chinesa Huawei, chamada Meng Wanzhou, foi presa no Canadá com a aprovação americana, a partir da acusação de que sua empresa havia desrespeitado as sanções internacionais contra o Irã. Wanzhou é filha do fundador da empresa, o qual era um ex-oficial do Exército de Libertação Popular da China, tornando-a muito próxima das engrenagens da ditadura vigente no país. A sobredita multinacional chinesa vem sendo perseguida no Ocidente também pela acusação de altíssimo grau de participação na pirataria.

O episódio não significa que os 90 dias de trégua acordados entre Estados Unidos e China tenham ido por água abaixo, pois o governo chinês “apenas” reclamou explicações do embaixador norte-americano, exigindo a libertação da executiva, não tocando em assuntos relativos ao que foi acertado no G-20.

De qualquer forma, se foi acordada uma trégua na guerra comercial ao sabor de vinho e carne macia em Buenos Aires, o sabor amargo da tensão está presente novamente no prato do dia.