Quando Eduardo Galeano, escritor uruguaio, afirmou que “o futebol é a atividade mais importante do século 20” estava relatando o ápice de uma construção histórica entre o homem e a bola que se insere nas mais diversas sociedades. Em sua obra Futebol: sol e sombra, o autor revela a seguinte frustração: “Ao escrever, iria tentar fazer com as mãos o que nunca fora capaz de fazer com os pés: aselha incorrigível, vergonha dos campos de jogo, não tive mais remédio senão pedir às palavras o que a bola, tão desejada, me tinha negado”.

O futebol não foi uma invenção que possa ser atribuída a um indivíduo, é a mais pura imagem da coletividade, da democracia, é uma atividade universal.
Registros arqueológicos evidenciam vários grupos na antiguidade que jogavam algum tipo de esporte envolvendo bola no pé que possivelmente originou o futebol.
No Japão, surgiu por volta de 4.500 a.C. e era denominado “Kemari”. Era um jogo voltado à diversão, quase uma celebração, pois não contava pontos, consistia em manter a bola no ar por mais tempo possível e esta era passada de pé em pé.

Na China, por volta de 2.600 a.C., surgiu o “Tsu Chu” (tradução Tsu = chute e Chu = bola). Seu inventor, Yang-Tse, um oficial do imperador Huang-Tse, que o idealizou como treinamento militar para a sua guarda pessoal. O esporte rompeu os limites da corte e passou a ser praticado pelo povo.
No Oriente Médio, vestígios arqueológicos levam ao Egito e Babilônia em 3.000 a.C. uma prática esportiva e religiosa, com a utilização de pelotas e uma bola feita de palha ou casca de arroz revestida de tecidos coloridos.

Além destes locais, podemos perceber esportes deste tipo na América, Grécia, Roma, França, Itália, chegando até o nascimento do futebol moderno, ou seja, configurado com estruturas contemporâneas. Oscila entre Inglaterra e França o nascimento do futebol moderno, porém, o primeiro registro que se tem de 1175 é na Inglaterra e consta no livro Decripto Nobilissimae Civitatis Londrinae, do cronista Willian Fitzstephen. O autor cita que, em dias especiais, praticava-se um jogo, em que os atletas chutavam um balão de couro recheado de feno.

No Brasil, o futebol foi implantado oficialmente por Charles Miller, em 1894. Miller era um paulista e estudou durante anos na Inglaterra, chegando a ser titular da seleção do Condado de Hampshire. Ao regressar ao Brasil, tentou exaustivamente introduzir o esporte em clubes de elite. Em 14 de abril de 1895, conseguiu reunir um grupo de ingleses funcionários da companhia de gás e da São Paulo Railway. Na primeira partida oficial, o São Paulo Railway venceu o Gás Team por 4 x 2 e passou para a história como vencedor da primeira partida registrada no Brasil.

Segundo o psicólogo Holandês Frederik J. Buytendijk, o poder de atração do futebol deve-se ao fato de ser jogado com uma parte do corpo tosca e inadequada que é o pé. A função do pé é manter o homem ereto, deslocá-lo de um lugar para o outro. Enquanto a mão tem mobilidade e permite vários usos, o pé tem funções limitadas. Logo, a imprevisibilidade e o aleatório de um chute geram a tensão e o suspense tão emocionantes para o jogador e, consequentemente, para o torcedor.

Indivíduos superam-se com uma bola no pé, vencem limites estabelecidos pela gravidade, pela natureza. Chutam de todas as maneiras: de bico, de peito do pé, de trivela, de chapa ou de calcanhar, usam a cabeça para pensar a jogada ou para jogar, às vezes, sem querer ou até mesmo intencionalmente utilizam as mãos, o objetivo e fazer o gol, não precisa ser de placa, nem de ouro, mas se ocorrer uma jogada espetacular, a mesma será lembrada para sempre.

Quem não joga? Quem não joga assiste. Nas arquibancadas dos estádios, das poltronas de suas casas pela televisão, ouvem através das ondas do rádio, no trabalho, no trânsito, em casa…, enfim, fazemos parte de um público gigantesco e mundial que para por 90 minutos para viver o tão popular e fascinante futebol.

Nós, brasileiros, podemos nos orgulhar, pois nesta categoria somos os melhores do mundo. A nossa seleção nos últimos 50 anos é considerada a favorita em todas as Copas do Mundo. Somos invejados por países com superioridade econômica, bélica, política, etc. Somos invejados por todos os países que compram efetivamente nossos jogadores. Por isto, tomo para mim a ideia de meu mais novo ídolo, Abrão Aspis, autor da obra Futebol Brasileiro – do início amador à paixão nacional, que diz que “com alarde, gabolice, felicidade e orgulho, podemos dizer que no universo do futebol o Brasil é a única superpotência”.