De acordo com o cimo da pós-modernidade, poder-se-ia lançar as perguntas: Quem é o “eu”? E quem é o “próximo”? Pois em tal época, que não se sabe definir o “eu”, interessar-se pelo “próximo” torna-se algo totalmente paradoxal. Construir um pensamento alicerçado numa premissa paradoxal não apresenta característica de um raciocínio lógico, diriam os analíticos, pois é algo contraditório.

Mas essa contradição é quebrada pelo conceito da dialética hegeliana. Sendo assim, não é uma contradição, mas uma contrariedade. Um novo paradigma surge a partir de um atual, e assim a sociedade caminha para a síntese, isto é, à perfeição.

O “eu” na modernidade seria o subjetivo, a identidade, poderia ligar a sua ideologia, as convicções, pensar a vida partindo da realização interior, objetivando a felicidade. Mas, na pós-modernidade, o “eu”, o subjetivo, tornou-se um subjetivismo, um individualismo, uma espécie de narcisismo. Uma perda de identidade, o “eu” apresenta-se desfigurado.

Por isso o antagonismo, quem seria meu “próximo”? Num ambiente que não se conhece o próprio “eu”. Para responder esse questionamento vigente, sem medo, a bíblia traz uma definição de “próximo”, que permite construir uma concepção de “eu”.

“Um homem que descia de Jerusalém a Jericó e caiu em meio a salteadores que, depois de o terem despojado e moído de pancadas, lá se foram, deixando semimorto. Por acaso, um sacerdote descia pelo mesmo caminho… Do mesmo modo, um levita passou pelo lugar… Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele, viu-o, e foi tomado de compaixão por ele… Qual dos três te parece haver sido o próximo daquele que caiu nas mãos de salteadores?” (Lc 10, 25-37).

Algo surpreendente é a sutileza de Jesus, responde uma pergunta com outra pergunta. O desejo de intimidar do “doutor da lei” dá-se num âmbito pessoal: quem é meu “próximo”? Mas Jesus inverte, e pergunta: qual deste comportou-se como “próximo”?
“O doutor da lei” falava de uma categoria social, suscetível de definição, observação e explicação, Jesus mostra que o próximo não é um objeto social, mas um comportamento. “O próximo é a própria conduta de se tornar presente”.

Eis por que o próximo é da ordem da narrativa: era uma vez um homem que se tornou o próximo de um desconhecido que fora vítima de salteadores. Conta a narrativa uma série de eventos: uma série de encontros que falharam e um encontro que teve bom êxito; e a narrativa do encontro bem sucedido consolida-se numa ordem: “Vai e faze o mesmo”. A parábola converteu a história narrada em um paradigma de ação.

Não há, pois, categoria do “próximo”, a ciência do “próximo” é logo interceptada por uma práxis do “próximo”; faça-se “próximo” de qualquer um. Mas o pícaro da parábola apresenta outra face, o acontecimento do encontro torna presente uma pessoa a outra pessoa, ou seja, um face a face.

Não apenas um “eu”, a um objeto, dominado e totalizado.
Os que passam pelo “próximo” e não acolhem são pessoas conceituadas na sociedade da época, denominados pela categoria social: “o sacerdote e o levita”. Ambos são parábolas vivas, a parábola do homem perante a função social, do homem absorvido por seu ofício, do homem indiferente.

Tal atitude chega a ponto de ocupar-lhe e fazer com que se sinta indisponível para a surpresa do encontro. Faz com que se tornem alienados as instituições que representam.
Se quiser, tem-se a possibilidade de classificar o samaritano como uma categoria social, mas, para os outros, é, para o judeu pio a categoria do estrangeiro; não faz parte do grupo; é o homem sem passado nem tradição, impuro, um relapso. É da categoria da não categoria.

Não está ocupado e nem preocupado por causa de sua ocupação: está em viagem, não se acha debaixo do peso de seu status social, disposto e enfrentar qualquer imprevisto; disponível para o encontro e a presença. Fruto da disponibilidade, inventou uma nova conduta, com princípio fundante na relação “de homem a homem”. Essa mesma conduta foi à ordem do evento, o samaritano torna-se uma “pessoa” pela sua capacidade do encontro.

A sua compaixão foi um gesto além do ofício, do personagem, da função. Sendo assim, se tem uma definição de “próximo” e de “eu”. O “eu” é o humano que se descobre humano, que valoriza o “outro” independente das diferenças. Que não se mostra acomodado com a desumanização, que sabe a necessidade do “tu”.

Que não se reduz a um “eu”, fictício, sem identidade, resquício de uma competição social, ou do peso de um título. E o “próximo” é todo aquele que não se pode totalizar, que foge do domínio, que transcende qualquer postura egocêntrica. Que é imanente, mas revela a face do transcendente, que busca o infinito, o “tu”.