Ingressei no primeiro semestre do curso de direito da Universidade Federal de Pelotas em março de 1981. Poucos meses depois, fui escolhido pelo DCE para ser representante dos alunos do curso no Conselho Universitário.

Matriculei-me na universidade não para obter um diploma, mas para mudar o mundo. Estudava pela manhã e trabalhava como voluntário à noite em uma favela na periferia pobre da cidade. Nas reuniões nas comunidades eclesiais de base, as lições da teologia da libertação. Na universidade, os debates melhores não eram travados nas salas de aula, mas entre os colegas do movimento estudantil que, naquele tempo, estudavam muito.

Ainda não predominava o “achismo”. Meu livro preferido era O Estado e a Revolução, de Lênin. Não notava ainda que havia diferenças entre a revolução cristã e a revolução marxista. Somente em 1989 (queda do muro de Berlim), percebi com mais clareza tais diferenças.

A primeira assembléia geral ninguém esquece. Mais de cinco mil estudantes de toda a universidade. O ginásio cheio. Pedi a palavra e, enquanto a distância entre eu e o microfone se fazia menor, dei-me conta que deveria falar com convicção e clareza. Organizei em segundos um breve esquema mental. Segurei o microfone e apresentei minhas propostas com objetividade e paixão.

O “companheiro Fábio”, crente convicto, de oração diária, contava com a simpatia dos seus amigos ateus, devotos do marxismo e da psicanálise (na época, Freud era mais uma ideologia do que uma metodologia terapêutica).
A primeira passeata também é inesquecível. Principalmente se interrompida pela polícia de choque.

No movimento estudantil, além dos estudantes sérios, havia os “maconheiros da revolução” e os “traumatizados pelo pai”. Os “maconheiros da revolução” reuniam-se para estudar marxismo entre cervejadas, baseados e orgias sexuais. Estudantes inúteis à revolução. Os “traumatizados pelo pai” eram os que rejeitavam o reitor pela lembrança da autoridade do pai carrasco que tiveram. Transferiam para a figura das autoridades políticas (reitor, prefeito) o trauma que sofreram pelo autoritarismo do próprio pai. O problema deles não era político, mas psicológico.

O movimento estudantil ainda conserva virtudes e, também, velhos cacoetes: as tendências marxistas foram substituídas por partidos (PCO, PSTU, PT, PSOL); e ainda há quem troque os argumentos pelas ofensas, já que elas não exigem muita cognição.
No meu caso, recentemente escrevi para defender, em resumo, duas idéias sobre a Unisul: sua raiz humanista-cristã, e meu apreço (pessoal) pelo voto do colégio eleitoral.

Fui chamado de puxa-saco, pelego, reacionário. Usei uma bela citação publicada por um aluno num jornal e ele me chamou de criminoso. Meu crime: usar uma citação literal. Ora, imagino como tal aluno fará sua monografia sem recorrer a citações literais.
Defendo a superioridade do colégio eleitoral não somente porque há reitores pelo Brasil que vencem eleições comprando votos diretos por meio de bolsas. Defendo por razões técnico-administrativas e políticas. Se o futuro reitor da Unisul for favorável ao voto direto, discordarei dele. Posso até perder, mas serei contra.

Não sou porta-voz da Unisul (mito criado por aí). Sou um simples professor brasileiro de sociologia que escreve com a própria cabeça, e com o direito de opinar sobre o que quiser. Ou será que agora alguns estudantes e jornais autoritários julgam-se no direito de determinar a minha pauta?

Sou cidadão brasileiro de um estado constitucional de direito e não tenho medo de intimidações. Opino, com ou sem insistência, sobre o que eu quiser e nenhum aprendiz de ditador vai calar a minha boca nem definir a minha pauta. A não ser que me matem. Mas, mesmo assim, do céu ou do inferno, vou continuar opinando!
Nota – Domingo escreverei sobre a nota da Apit.