Talvez, o pensar intrínseco dos últimos dias tenha me forçado a analisar e a refletir sobre o poema intitulado “José”, de Carlos Drummond de Andrade.
Parece-me que o poeta traduz a realidade gélida, indiscutível e penosa pela qual estamos passando: “E agora, José?/ A festa acabou/ A luz apagou/ o povo sumiu/ A noite esfriou/ E agora, José?/ E agora, José?”. Seus versos simples e objetivos remetem-me à reflexão do viver.

O eu-poético questiona o momento atual, o significado da nossa própria existência e do mundo. São ações no passado, portanto encerradas, concluídas, e sem saída! Ressalta que a “festa” da vida, que antes acontecia, muitas vezes despercebida de outrem, agora terminou. A “luz”, o “povo” e a “noite” que, a princípio, podiam-se ser desfrutados, agora não existem mais. O tempo é findo!

Assim, a fatal e repentina partida das radiantes e cheias de vida meninas – Gisa, Diélly e de Dona Tida; do nosso também estimado tio Anselmo Schotten – do sofrimento irreparável, do lamento e do choro que não querem cessar, aprofunda a certeza da pergunta sem reposta: “E agora, José?”. Deus, porém, espera que saibamos dar encaminhamentos diferentes à vida, mesmo com os escombros, com as ausências, com o deserto que se fez em nossas almas. Não sabemos como aceitar essa transmutação, o desligamento físico. Tudo se torna dolorosamente desesperador. Não estamos preparados para a morte.

A realidade e a harmonia de outrora, que nos propiciava conforto e segurança, no entanto, desabou. Ficamos à deriva, mas urge que saibamos reagir neste momento de ruptura, levantar e continuar a caminhada. É o alerta do Criador de que, a qualquer momento, estamos suscetíveis ao processo de desconstrução da transitoriedade.

Há que se edificar uma nova consciência de vida, todos os dias, incansavelmente, com sabedoria, munindo-nos de tijolos resistentes aos imprevistos, preparando a mistura fraternal da argamassa, unida ao ferro da confortante oração. Sobretudo, termos em mãos a trena para medir com cuidado nossas atitudes, dispondo, com antecedência, do alicerce da fé e do amor.

“A morte nos ensina que, no fim de tudo, nada nos pertence. (…) As coisas se partirão apesar de nós. As pessoas partirão quando chegar sua hora, não importa quão alto protestemos”. O que não podemos é legar a quem partiu a sensação de culpa por terem nos deixado.

Assim, construtores que somos, edificaremos a obra com a supervisão e o amparo do Grande Arquiteto, porque “A morte nos diz que devemos viver a vida agora, no momento – que o amanhã é ilusão (…). Diz-nos também que não é o número de nossos dias, horas ou anos que têm importância, mas sim a qualidade do tempo gasto”.
E isso elas e eles souberam fazer com maestria: viver intensamente, cumprindo muito bem cada missão a que lhes foi designada aqui na Terra.