N ão foi do PSDB – derrotado pelo PT nas últimas quatro eleições presidenciais – o ato decisivo para desalojar Dilma Rousseff da presidência da República.

Foi do maior aliado, o PMDB que ocupa a vice-presidência da República, com Michel Temer, seis ministérios (eram sete, até a saída voluntária de Padilha) e mais de 200 cargos. Temer é o principal beneficiado se houver a queda de Dilma: ocupará o lugar dela.

A carta de Temer (também presidente nacional do PMDB) – considerada fisiológica e hipócrita, porque nela o vice reclama de cargos perdidos e considera-se ‘decorativo’, mas disputou reeleição para a mesma função decorativa – não deixa dúvidas que os 66 votos do partido na Câmara, que antes sustentavam Dilma, agora a detonam.

Seguiu-se à carta, ações que comprovam o dito: a) o pedido de demissão do ministro Padilha, seguidor de Temer; b) a destituição, pelos deputados do PMDB, do líder do governo na Câmara, declarado pró- Dilma e, c) a derrota do governo na formação da comissão que vai avaliar o processo.

Antes da carta, porém, três fatos sinalizam que o golpe já estava pensado: a) a declaração do senador Romero Jucá (PMDB) nas páginas amarelas da Veja (outubro de 2015) compara o governo a um barco prestes a afundar: “O governo está dando camarote no Titanic em vez de mudar o rumo do navio. Só que, na hora em que o navio afundar, ninguém vai ficar na suíte, vai todo mundo pular do barco”; b) a oposição, por conveniência, do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que somente deflagrou o processo contra Dilma quando viu negados os votos do PT, para livrá-lo de investigação na Câmara por quebra de decoro (afirmou, em CPI, que não têm dinheiro na Suíça, mas autoridades suecas provaram, com documentos, que ele tem); c) a divulgação do plano ‘uma ponte para o futuro’, pelo PMDB, com críticas abertas à política econômica do governo do qual faz parte, visando tornar Temer palatável para o empresariado. Coincidência ou não, no dia 14 de outubro, o presidente da Fiesc anunciou apoio ao processo de impeachment.

É a forma de o PMDB, que ganhou notoriedade por lutar pelo voto direto da população para eleger o presidente da República, assumir o Palácio do Planalto pela forma indireta. Temer tem apenas 2% das intenções de voto, segundo pesquisa Data Folha.

O vice-presidente da República prestaria melhor serviço à nação se abandonasse o governo tão logo se sentiu ‘decorativo’. Confessar-se ‘decorativo’ e continuar usufruindo das benesses do cargo é, no mínimo, usurpação do dinheiro público. Mudar de lado apenas quando a situação piora, e para benefício próprio, é golpe.

Dr. Ulysses Guimarães deve estar se revirando no fundo mar. Ele foi, como presidente nacional do PMDB, “o senhor Diretas Já” e morreu em acidente de helicóptero no mar de Angra dos Reis, em 1992, e seu corpo nunca foi encontrado.