O celular desperta. São seis e meia da manhã. Coloca na soneca para iludir-se mais uns dez minutos. Parece passar-se dez segundos. O alarme soa de novo. É preciso levantar-se. Organiza os cadernos, os diários e as avaliações a serem entregues. Entre o escovar de dentes e o lavar o rosto, revisa tudo a ser trabalhado naquela manhã. Como ensinar os tipos de predicados? Olha-se no espelho e lembra que os anos já lhe roubaram alguns predicativos. Mas a vida continua. É preciso disposição para chegar na 307 e segurar as ferinhas. Sempre estão com a corda toda. Passar um sermão da montanha para ver se levam as coisas mais a sério. Mas, lá no íntimo de seus pensamentos, não os querem diferentes.
 
Eles são adolescentes, no auge de sua capacidade rebelde, do seu ímpeto de contestação. Deixem os jovens viverem sua linda juventude. Mas faça de conta que está sempre bravo. Cara fechada para não passarem dos limites. 
 
O som do carro a todo volume. Quer esquecer as mazelas a sua volta. O trânsito caótico, desigualdade social, a exploração do trabalho e a hipocrisia. Afinal, o seu destino é a escola onde tudo isso se denuncia, redime-se. Olhar pelos vidros e perceber o caminhar dos alunos. Meu Deus, quantos sonhos! São vidas indo ao seu encontro, vivenciar experiências jamais esquecidas. Tantos anos fazendo as mesmas coisas. Mas as coisas nunca são as mesmas. Por isso ainda aquele friozinho na barriga. A semântica nunca será a mesma diante daquele olhar de incompreensão. O pátio está lotado. Conversas infindáveis. Segredos inconfessáveis. Às vezes, imagino se aquele início não tivesse fim, o sinal nunca mais batesse. Haveria assunto para o resto do viver. Os pequenos correm uns atrás dos outros sem nem ao certo saberem o porquê. A vida pulula naqueles olhos com brilhos intensos. Impossível sentir-se indiferente. Precisa dar o melhor de si.
 
A sala dos professores sempre na balbúrdia corriqueira. Avisos intermináveis. Discussões acirradas. Uma tempestade de opiniões e ideias conflitantes, mas imprescindíveis para uma construção cultural fincada na diversidade. A loucura dos entusiastas pela diferença em contraste com outros que preferem o tradicional. Um admirável mundo novo ganhando espaço no lugar comum de nossas estranhezas, avessas à revolução. Por alguns segundos, desprende-se do mar revolto em que está mergulhado, ao olhar num cantinho do quadro escrito “Guilherme – atestado”. “Nossa, já faz dias! Que saudade!” – pensa. Não teve tempo ainda para visitá-lo no hospital, onde continua forte na luta pela vida. Faz uma rápida oração.
 
O sinal finalmente toca. É hora de subir consciente de que o inesperado o espera. Na engrenagem conflituosa do vendaval de emoções que vivem os alunos, tudo é possível. Um choramingar por causa de namoricos, a briga com a mãe logo cedo, um mal estar repentino, não se sabe por que, ou a simples SPPA – síndrome da prova na próxima aula.
 
A sala parece comportar o dobro dos alunos, tamanha a algazarra. Mas, ao chamar cada nome, os ânimos vão se aquietando. Letra a letra, vai se ouvindo uma sequência de presentes, o que eles exatamente são em sua vida. Porém, depara-se com uma ausência que jamais será esquecida. O nome Marcelo, que não teve coragem de riscar no diário. Como gostaria de poder dar aquela olhada sobre os óculos e dizer-lhe: “Posso continuar minha chamada?” Mas quis o destino levá-lo para alegrar outros horizontes.
 
Ser professor é isso. Viver intensamente a sua vida em confluência com a vida dos outros, num arranjo enlouquecidamente perfeito de amor pelo que faz, com quem e por quem faz!